Cascavel - O tom bem-humorado, às vezes irônico e até “ácido” que sempre utilizamos para provocar reflexões mais profundas nos leitores, desta vez, não terá lugar. A pauta desta semana é tão séria quanto lamentável. Por isso, não há espaço para o “bom-humor” e as ironias que deixam assuntos espinhos mais leves e palatáveis.
A comunidade cascavelense vive dias de apreensão, indignação e consternação. Nos últimos meses, vieram à tona casos de abuso sexual envolvendo instituições que, em tese, deveriam oferecer segurança, educação e acolhimento: igreja e escola. Esses episódios têm provocado não apenas revolta, mas também um abalo profundo na confiança coletiva, atingindo a essência de ambientes considerados refúgios morais e sociais.
Uma condenação
No final de 2024, um agente educacional condenado a 30 anos de prisão por abuso contra uma criança em um Cmei (Centro Municipal de Educação Infantil), foi exonerado das funções públicos, trazendo a polêmica à tona, com grande repercussão e que provocou a instalação de uma CPI na Câmara Municipal para apurar falhas nos processos administrativos internas da Prefeitura de Cascavel. O condenado, mesmo diante de toda gravidade das acusações, permanecia trabalhando em um Cmei, tendo contato direto com as crianças.
O crime, cometido em 2019, vitimou uma criança de apenas três anos, durante o período de descanso no centro de educação. Mesmo após denúncias, o agressor só foi formalmente desligado do cargo em 2024, cinco anos depois do abuso, fato que levantou questionamentos sobre falhas nos mecanismos de apuração administrativa.
A sentença condenatória saiu no início de 2025, marcando uma das punições mais severas aplicadas pela Justiça local.
Falsificação e desvio
Infelizmente, os casos não são isolados na cidade. Em 2023, um pastor evangélico foi preso sob acusação de integrar um esquema de falsificação e venda de agrotóxicos — crime de natureza distinta, mas igualmente chocante pela posição de liderança religiosa que exercia. Em outra ocasião, um padre foi alvo da Justiça por desviar R$ 800 mil de doações e eventos promovidos pela comunidade, revelando um cenário de reiteradas quebras de confiança.
Agora, novo episódio causou enorme repercussão com a prisão de um padre acusado de abuso sexual e a abertura de investigações envolvendo um arcebispo falecido, suspeito de acobertamento e até mesmo de envolvimento em condutas semelhantes.
“Lobo em pede de Cordeiro”
No último domingo (24), a Polícia Civil deflagrou a operação Lobo em Pele de Cordeiro e prendeu um padre de 41 anos, suspeito de abusar sexualmente de adolescentes e jovens desde 2010, quando ainda era seminarista.
As investigações apontam que ele conquistava a confiança das vítimas por meio de presentes, dinheiro, viagens e convites para dormir em sua casa. Há relatos de que oferecia bebidas alcoólicas a menores de idade para facilitar os abusos. O religioso já havia sido afastado de suas funções pela Arquidiocese de Cascavel em 14 de agosto, logo após os primeiros indícios do crime.
Segundo a delegada Thais Regina Zanatta, responsável pelo caso, sete vítimas já foram identificadas, incluindo uma que era menor na época dos abusos. A prisão ocorreu na casa da mãe do investigado, onde a polícia apreendeu eletrônicos e materiais religiosos que passarão por perícia para reforçar o inquérito.
Arcebispo falecido investigado
As diligências também apontaram indícios de que o então arcebispo de Cascavel, Dom Mauro Aparecido dos Santos — falecido em 2021, vítima de Covid-19 — teria acobertado condutas criminosas do padre preso. Além disso, a Polícia Civil confirmou a existência de duas vítimas do próprio Dom Mauro, incluindo um caso registrado em 2008 envolvendo uma menina de apenas 3 anos, que frequentava um Cmei (Centro Municipal de Educação Infantil) administrado por irmãs da igreja no Bairro Guarujá.
A reportagem do Hoje Express conversou com a família da menina, hoje com 20 anos. A irmã relatou que eles foram procurados pela Polícia Civil há cerca de uma semana, que confirmou a reabertura do caso diante das novas acusações envolvendo representantes da Igreja em Cascavel. Uma das vítimas ouvidas pelos policiais afirmou que a Igreja tinha conhecimento das denúncias.
A Polícia Civil analisa documentos, mensagens e depoimentos que podem ampliar significativamente o alcance das investigações, atingindo não apenas indivíduos, mas também a própria estrutura de proteção interna da Igreja.
Quando os refúgios se tornam ameaças
Esses episódios expõem não apenas crimes isolados, mas também a fragilidade das estruturas que significam e também deveriam garantir proteção. Quando escolas e igrejas falham, não apenas as vítimas diretas sofrem, mas toda a comunidade se sente traída. A sensação de violação se agrava pelo contraste entre a função original dessas instituições — cuidar, educar e proteger — e a realidade revelada pelos escândalos.
A psicóloga Carine Zandoná, especialista em terapia de família, explica que a dor coletiva é mais profunda justamente porque os crimes ocorrem em ambientes de confiança.
“Estamos falando de lugares que se apresentam como espaços de segurança. Igreja e escola têm papéis de enorme responsabilidade, mas são conduzidas por seres humanos. A igreja é santa, mas os homens são pecadores. Nada justifica, porém, os atos praticados”, afirma.
Para ela, o caminho para evitar situações semelhantes passa pela prevenção, com critérios mais rigorosos e uso de ferramentas psicológicas.
“Dentro da psicologia, existem métodos capazes de identificar tendências abusivas. Seria possível aplicar testes para prever riscos, mas ainda esperamos por denúncias formais. Qualquer suspeita deveria abrir investigação imediata”, explica.
Outro ponto destacado pela psicóloga é o papel da própria sociedade na manutenção do silêncio: “Até que ponto a comunidade não contribui para manter esses assuntos velados? É preciso escancarar os casos para que haja mudança. Não podemos generalizar, porque existem pessoas boas e ruins, mas quem erra deve ser punido de maneira exemplar.”
Fé não abalada, mas vigilância aumenta
Apesar do choque, Carine Zandoná ressalta que os fiéis não precisam (nem podem) perder a fé diante dos escândalos.
“Quem tem fé madura não abandona a igreja por causa de erros humanos, mas passa a estar mais atento. Nossa referência deve ser Deus, não o padre ou o pastor. Ao mesmo tempo, como sociedade, precisamos vigiar e cuidar das crianças sempre. O mal existe em todos os ambientes, mas o impacto é maior quando ocorre em locais que deveriam ser refúgios de proteção.”