
Mais cedo, no caminho para o Back2Black, de quem vinha da Zona Norte, a cidade fervia por motivos diferentes. Um dia de intensos tiroteios na Cidade de Deus entre policiais e traficantes culminou com a queda de um helicóptero da PM (e a morte de seus quatro ocupantes) por volta de 19h30m, fazendo com que a Linha Amarela ficasse fechada por três horas nos dois sentidos ? o que talvez tenha justificado o atraso de cerca de uma hora na programação do festival.
Depois de um debate com artistas como Daúde, Deize Tigrona e Rico Dalasam no Teatro de Câmara, o Baiana System abriu a noite musical do evento. Com a excelência e os graves de costume, a banda mostrou seu “dubaiano” (dub+Bahia) em músicas como “Panela” e o clássico “Depois que o Ilê passar”. Caminhos abertos para a jamaicana Grace Jones.
Já nos primeiros segundos no palco, Grace afirma a força de sua imagem ? em torno do qual foi construída sua carreira. Sua pintura corporal ? que atesta a boa forma aos 68 anos ? é lida pela plateia brasileira a partir de referências que cruzam os impactos da Timbalada e da “mulher do fim do mundo” de Elza Soares.
Na verdade, o buraco pop é mais fundo: a arte faz referência à pintura que Keith Haring fez no corpo da artista, transformando-a numa divindade africana nascida no olho da exuberância da pop art.
É com a exuberância da pop art ? que deu a ela régua e compasso ? que Grace Jones conta sua história no palco. Ora usa crina e cauda, como uma leitura bem humorada de um unicórnio. Mais tarde, o chapéu coco com brilho que, sob o canhão laser, simula um globo espelhado. Bambolês, máscaras douradas, indumentária tribal feita de palha ? tudo sob o filtro de Warhol e Haring (e Madonna e Gaga, mestra e aprendiz).
Grace não conta sua história simplesmente expondo sua coleção de músicas antigas (um repertório que, para a alegria dos fãs, teve clássicos como “Nightclubbing”, “Private life” e “Slave to the rhythm”, na mão de uma boa banda, que imprimiu grooves que passeiam da disco music ao electropop, passando por reggae e new wave), mas uma história viva em seu comportamento e falas.
A personagem que marcou a noite novaiorquina está ali ? mais como resistência do que como pastiche, que ela também toca. Em sua performance, ela carrega o hedonismo da era que representa. Sexo e drogas atravessam a apresentação. Ela provoca a plateia sobre tirar a roupa e, quando os fãs reagem com empolgação, brinca: “minha buceta não é tão grande”. Comenta uma irritação no nariz dizendo que “não é cocaína, ainda”. Pede um baseado de um fã da fila do gargarejo. Se toca na região genital e nos mamilos. Leva um dançarino de pole dance ao palco.
Até que, perto do fim, vem o convite: “agora vamos para a igreja”. E ela faz uma “Amazing grace” enxuta, só sua voz ? e seu figurino, obviamente nunca enxuto. Beleza crua que ajuda a dar sentido à sinceridade chic-camp-junkie que Grace sustenta, e que a sustenta como artista.
Cotação: Bom