O mercado pet cresceu muito nos últimos anos, oferecendo todos os tipos de alimentos, brinquedos e até festas - Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil
O mercado pet cresceu muito nos últimos anos, oferecendo todos os tipos de alimentos, brinquedos e até festas - Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

Cascavel e Paraná - O cão é conhecido como o “melhor amigo do homem” e em muitos lares, ele ocupa posições importantes, como um verdadeiro “membro da família”. O mercado pet cresceu muito nos últimos anos, oferecendo todos os tipos de alimentos, brinquedos e até festas para os pets que já têm as portas abertas até nos shoppings centers – com espaços exclusivos para ele e a sua família. Novos edifícios são planejados pensando no bem-estar dos amiguinhos que têm todo o carinho do dono, já que eles são grandes amigos e trazem alegria por onde passam.

Foto: AEN

Independente da raça, tamanho, cor e latido, os cães encantam de crianças a idosos e são cada vez mais defendidos tanto pelas leis nacionais como pelos seus donos, que têm certo gasto mensal com cãozinho que vai ao pet tomar banho, vacina, remédio e fica até em hospital especializado quando precisa de cuidados. O “mundo animal” teve um grande avanço na última década e é claro que isso reflete justamente na proporção do amor e do carinho que eles dão aos seus donos.

Mas nem todo cão é amigo. No ano passado, muitos casos de ataque de cães pelas ruas da cidade, principalmente de raças mais agressivas como o pittbul e o rotweiller, acabaram acendendo um alerta de até quando o amigo é confiável.

39 vítimas

Levantamento feito pela reportagem do Hoje Express pelo site do Corpo de Bombeiros de Cascavel apontou que, de janeiro a dezembro do ano passado, foram registrados 39 casos de ataques de animais na cidade nos mais diversos bairros. Deste montante de casos, uma média de mais de dois casos por mês, a maior parte das vítimas é adulta, 23 casos – sendo que nove são idosos – e ainda sete são crianças. Os ferimentos são de todos os tipos indo de leve, médio até graves, envolvendo algumas vezes mais de uma pessoa no mesmo ataque.

O caso mais recente aconteceu em novembro do ano passado no Bairro Tropical. Dois cachorros da raça rotweiller fugiram da casa onde moravam e atacaram moradores próximos. No primeiro ataque, um adulto ficou gravemente ferido com várias mordidas nas pernas, sendo socorrido pela esposa. Na semana seguinte, os cães fugiram novamente e atacaram mais três adultos e ao atender uma das vítimas, policiais militares acabaram matando um dos cachorros e o outro fugiu.

Toda a ação foi filmada por câmeras de segurança e chamou a atenção pela agressividade do animal e pela tentativa das pessoas não serem mordidas, junto com o desespero.

Não é onça, mas mata!

A cidade que tem episódios recorrentes de aparecimento de onças que perambulam pelas ruas, tem muito cão agressivo que tenta se passar por amigo. Outro caso bastante polêmico de ataque de cães transformou a vida de Eloi Antônio Neis, 79 anos. O ataque ao idoso aconteceu em agosto de 2024 quando ele caminhava no Parque Vitória, no Centro de Cascavel. Outro idoso que estava com ele também foi atacado, mas em menor gravidade.

A reportagem conversou com a filha do seu Eloi que contou que o caso foi encerrado há poucos dias na Justiça e reclamou que após a audiência criminal a sentença pronta foi dada “não dando escolha à família a não ser aceitar o que o juiz determinou”. Seu Eloi ficou com várias sequelas, entre elas, perdeu a mobilidade do pé esquerdo fazendo com que ele ande com ajuda de bengala e cadeira de rodas. Ele teve ainda fratura do osso externo que liga com a clavícula o deixando com dores constantes, além de ter uma série de traumas psicológicos como ataque de pânico e crises de ansiedade.  

⁠Por conta da lesão da perna, ele caiu e quebrou o fêmur precisando fazer cirurgia, causando trombose em ambas as pernas, AVC (Acidente Vascular Cerebral) o deixando acamado por mais de cinco meses e tenta amenizar os problemas com fisioterapia periódica e sem previsão de alta. “Acredito que podemos juntos criar uma lei mais rígida para acabar com a impunidade dos ataques. Virou comum porque ninguém é punido. Só nós, como população, vamos conseguir”, falou a filha. A pena para o dono do cachorro foi de oito horas de trabalho comunitário por 30 dias.

Foto: PMPR

Existe in(justiça)?

O advogado da família e vereador da cidade, Lauri Silva, disse que continua tramitando o processo cível e que a única forma de mudar as punições, ou seja, deixá-las mais rígidas é mudando as leis federais, já que casos como o do seu Eloi trazem muita preocupação com a responsabilidade pelos animais agressivos e soltos pela cidade, que deixam marcas irreparáveis. “Este tipo de caso é de competência federal, por aqui, não podemos fazer muita coisa”, disse ele sendo questionado de alguma ação por parte do Legislativo Municipal.

No âmbito municipal, os casos são atendidos pelo Setor de Bem Estar Animal da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, que afirma ter intensificado as fiscalizações que são registradas pelo 156 – Ouvindo Cidadão – com o apoio dos fiscais do setor e quando necessário da Guarda Municipal, já que a ação visa garantir a segurança da população e o cumprimento das responsabilidades legais por parte dos tutores.

Além disso, a população pode colaborar denunciando casos de cães tutelados que tenham acesso às ruas. O abandono de animais é crime e que também deve ser realizada denúncia com o maior número de informações, como placa de veículo ou endereço da situação. As denúncias devem ser realizadas via 181, 153, 156, 190 -24h por dia.

Melhor preso ou adestrado?

O ataque de cães é uma preocupação crescente no Brasil, com estatísticas mostrando aumento de fatalidades e ocorrências graves – sendo a maioria dentro de casa ou próximo – e exigem atenção à linguagem corporal do cão e medidas preventivas. É importante ressaltar a responsabilidade dos tutores para controle e socialização, especialmente de raças grandes como os pittbuls, que exigem coleira e focinheira em público, além de manter o cachorro preso evitando ataques nas ruas.

João Paulo de Freitas é adestrador de cães e contou que diversos aspectos precisam ser analisados para entender melhor sobre o comportamento canino. Segundo ele, um ambiente sem regra, falta de exercício, excesso de estímulos, ausência de rotina, alimentação inadequada e donos inseguros ou permissivos aumentam o risco de ataques, já que o ideal é que o cão seja equilibrado, tenha uma rotina previsível, liderança clara e manejo correto.

Sobre o ato de adestrar, ele disse que o ideal é começar desde filhote, já nas primeiras semanas em casa, trabalhando rotina, limites e comunicação o avanço é significativo, mas que não existe uma idade limite, já que cães adultos e até idosos aprendem. “O que muda é o tempo e a estratégia, não a capacidade de aprender”, relatou. Segundo ele, os ataques podem ser reflexos de medo, insegurança, frustração, territorialismo mal conduzido, dor física e experiências negativas, já que o ataque não é maldade, é uma resposta emocional de um cão que não sabe lidar com a situação.

João Paulo de Freitas é adestrador de cães em Cascavel – Foto: Arquivo Pessoal – Foto: PMPR

Robô ou agressivo?

Para João, o adestramento é extremamente importante para diversos animais, já que um trabalho bem feito deixa o cão mais calmo e previsível e a agressividade vem da falta de regra e comunicação, não do treino, pois o cão treinado sabe o que se espera dele e isso reduz o conflito e somente quando o cão é mal conduzido ele acaba atacando. “O cão de guarda equilibrado é estável emocionalmente e só reage quando necessário. O perigo é quando se estimula a acessibilidade sem controle, sem obediência e sem rotina”, disse.

O profissional relatou ainda que dentro de casa é importante que o dono mantenha uma rotina, com regras claras, socialização correta e respeito ao espaço do cão. “A maioria dos acidentes acontece por excesso de liberdade e falta de supervisão. Cão não pensa como humano, ele reage ao ambiente. Quando o responsável entende isso, os problemas diminuem muito”, finalizou.

Foto: PMPR

Como as pessoas devem agir?

João que trabalha há anos com as mais diversas raças dá algumas dicas de como as pessoas podem agir no caso de se depararem com um cão solto na rua. Ele explicou que deve se evitar um confronto direto, não gritar, não correr, não encarar fixamente, proteger as áreas vitais, usar objetos como barreira e manter a postura neutra. No caso de ser atacada, a vítima deve procurar ajuda médica e comunicar o ocorrido. Para ele, não existe raça que ataca mais as pessoas, mas cão mal conduzido, socializado e interpretado.

“Raças mais fortes ou populares acabam aparecendo mais nas estatísticas, porque o dano é maior, no entanto não são mais agressivas. O ataque é sempre resultado da falta de manejo, limites e liderança, não da raça”, relatou. João deu algumas dicas de como os cães vão se apresentar antes de atacar, a primeira dica ele vai rosnar, depois apresentar rigidez corporal, olhar fixo, orelhas e caudas tensas, dicas importantes para que as pessoas saibam ler o animal.

João Paulo de Freitas é adestrador de cães em Cascavel – Foto: Arquivo Pessoal