
Cascavel e Paraná - O agronegócio brasileiro segue movimentando cifras trilionárias, mas os sinais de 2026 apontam para um ano de ajuste fino entre produção, preços e rentabilidade. A projeção mais recente do Ministério da Agricultura indica que o Valor Bruto da Produção (VBP) agropecuária deve alcançar R$ 1,392 trilhão, número expressivo que consolida o peso do campo na economia nacional, embora represente uma queda de 2% em relação ao ano anterior. Ainda assim, o montante supera a estimativa feita no mês passado e confirma a resiliência do setor diante de um cenário menos favorável para as commodities.
O VBP funciona como um termômetro do faturamento bruto da agropecuária brasileira, ao considerar tanto o volume produzido quanto os preços médios recebidos pelos produtores rurais. E, segundo o boletim mensal da Secretaria de Política Agrícola, a leve retração prevista para este ano está diretamente ligada à expectativa de preços mais baixos no mercado internacional e a uma desaceleração no ritmo de crescimento da produtividade agrícola.
Do total estimado para 2026, R$ 900,4 bilhões devem vir das lavouras, o equivalente a 66% do VBP nacional, com recuo projetado de 3,2% em comparação a 2025. Já a pecuária deve responder por R$ 491,1 bilhões, cerca de 34% do total, com crescimento modesto de 0,5%. O contraste entre agricultura e pecuária revela um movimento de acomodação nos grãos e maior estabilidade nas cadeias animais.
Entre as lavouras, poucas culturas devem apresentar avanço no faturamento bruto neste ano. Soja, café, mandioca, batata-inglesa e uva aparecem como exceções em um cenário majoritariamente de retração. A soja, principal produto do agro brasileiro, segue liderando o VBP agrícola, com previsão de R$ 351,2 bilhões, alta de 6,7%. Já o milho, segunda maior cultura em valor, deve registrar queda de 9,3%, com faturamento estimado em R$ 150,7 bilhões, refletindo a combinação de preços mais baixos e ajustes na produção.
Outras cadeias importantes enfrentam perdas ainda mais significativas. O trigo deve ter redução de 18,1% no VBP, somando R$ 8,5 bilhões, enquanto a cana-de-açúcar pode encolher 6,4%, chegando a R$ 109,3 bilhões. O impacto mais severo aparece na laranja, cujo faturamento bruto é projetado em R$ 15 bilhões, queda de 38%, e no cacau, com retração estimada de 33%.
No grupo de alimentos básicos, arroz e feijão também sentem o peso do novo ciclo. O VBP do arroz deve cair 30,6%, para R$ 14,4 bilhões, e o do feijão recuar 8,8%, totalizando R$ 10,7 bilhões. Esses números acendem um alerta para margens mais apertadas em culturas sensíveis a custos e oscilações climáticas.
Pecuária
Na pecuária, o cenário é de maior equilíbrio. A cadeia de bovinos continua como a principal fonte de faturamento, com crescimento projetado de 4,5% e VBP de R$ 221 bilhões. A produção de frangos deve avançar 1,4%, alcançando R$ 113,9 bilhões, enquanto a suinocultura permanece praticamente estável, com leve alta de 0,2%. Em contrapartida, a produção de leite deve recuar 6,2%, e a de ovos, 15,1%, refletindo custos elevados e ajustes na demanda.
Apesar da retração anual, o Ministério da Agricultura já revisou para cima as projeções do VBP de 2025, agora estimadas em R$ 1,419 trilhão, reforçando que o agro brasileiro segue operando em patamar elevado. Calculado a partir de dados de produção do IBGE e de preços coletados em fontes oficiais, o VBP cobre 19 cadeias agrícolas e cinco atividades pecuárias, oferecendo um retrato abrangente do desempenho do campo.
Em um ano marcado por margens mais estreitas e maior seletividade de ganhos, o VBP confirma que o agronegócio continua sendo um dos pilares da economia nacional — menos exuberante em crescimento, mas ainda robusto em geração de riqueza.