Os últimos quatro anos foram os mais quentes da história, e os 20 primeiros anos do ranking estão nos últimos 22 anos, afirmou no final de novembro a Organização Meteorológica Mundial (OMM). Segundo a entidade internacional, 2018 não será diferente: tudo caminha para que ele seja o quarto ano mais quente de que se teve notícia.

A OMM alertou que a temperatura média mundial durante os primeiros 10 meses do ano foi quase 1 °C superior aos níveis do período entre 1860 e 1900. Os dados ainda dizem que, de 2015 para cá, o mundo viveu os anos mais quentes registrados pelo homem. Se essa tendência continuar, a expectativa é de que, em 2100, as temperaturas estejam de 3 °C a 5 °C mais altas.

O aumento da temperatura de 0,98 °C em 2018 foi registrado por cinco medidas diferentes, analisadas de forma independente no mundo todo. A OMM diz que um dos fatores principais para o aquecimento menor deste ano em relação aos anteriores foi o fenômeno meteorológico La Niña, que costuma estar ligado a temperaturas da superfície do mar – normalmente mais baixas que a média continental.

Os investigadores dizem que, no começo do ano que vem, um novo El Niño pode se formar, o que tornaria 2019 um ano outra vez mais quente. Apesar da temperatura menor neste ano, os cientistas asseguram que a tendência de aquecimento em largo prazo continuou em 2018, como pode ser visto no aumento do nível do mar, na acidez do oceano e no resfriamento de glaciares – todos exemplos da mudança climática.

"Não estamos no caminho correto para cumprir os objetivos da mudança climática e controlar o aumento da temperatura", disse o secretário-geral da OMM, Petteri Taalas. "As concentrações de gases de efeito estufa estão em níveis muito altos, e se essa tendência continuar, é possível que os aumentos de temperatura sejam significativos no final deste século", completou. Segundo Taalas, a geração atual é a primeira a compreender a mudança climática e a única que pode fazer algo a respeito para diminuí-la.

Já a secretária-geral adjunta da OMM, Elena Manaenkova, foi mais fundo: "Cada fração de um grau de aquecimento marca uma diferença para a saúde humana e o acesso a alimentos e água doce, para a extinção de animais e plantas, a sobrevivência dos recifes de corais e da vida marinha. Marca uma diferença na produtividade econômica, na segurança alimentar, na resistência das infraestruturas e das cidades. Marca uma diferença na velocidade do derretimento dos glaciares e do fornecimento de água, e do futuro de ilhas baixas e de comunidades costeiras. Cada aumento importa", vociferou.

Na América Latina, os acontecimentos meteorológicos também foram reações ao efeito estufa: uma das regiões já tradicionalmente quentes do planeta (a maioria dos países são tropicais, se colocam no roteiro turístico mundial pelas praias, consomem aparelhos de ar-condicionado como nenhum outro no globo) viveu de perto os alertas da OMM em 2018.

No início do ano, uma seca afetou o Norte do Uruguai e a parte central da Argentina, quando as chuvas dessa franja continental foram 43% menores ao período registrado entre 1981 e 2010. Foi o ano com menos chuvas da história. Do ponto de vista econômico, os dois países perderam grandes quantidades de soja e milho.

No começo deste mês, o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou não acreditar em um documento redigido pela própria Casa Branca mostrando diversos indicadores da mudança climática no planeta. Ele também se retirou do Acordo de Paris, selado em 2015 com 195 países com o objetivo de reduzir as emissões de carbono.

O tema foi dos mais discutidos no encontro do G20, em Buenos Aires, também na primeira semana de dezembro. Ao jornal argentino La Nación, o presidente da França, Emmanuel Macron, disse que é preciso ir além das regras do acordo: "Os países deverão mostrar suas ambições apresentando contribuições mais ambiciosas".