O oeste representa a segunda maior bacia leiteira do Estado. Atrás apenas dos Campos Gerais, Toledo, Marechal Cândido Rondon e Cascavel respondem pelas principais produções, respectivamente, mas esse é um setor que, caso não se reinvente, poderá sofrer danos irreversíveis. O diagnóstico é de quem entende da área.

Um mapeamento da produção realizada a partir de uma chamada pública realizada pelo zootecnista do Instituto Emater Sérgio Haroldo Hein, identificou que existem hoje no oeste em torno de mil propriedades produtoras de leite e que, juntas, produzem cerca de 350 milhões de litros por ano, mas o número de estábulos já foi muito maior.

Somente nos últimos três anos cerca de 30% dos pecuaristas deixaram a atividade. As vacas foram para o açougue e a pastagem, na maioria dos casos, virou lavoura de grãos.

O cenário em decadência está em vias de nova retração. Para o zootecnista, outros 10%, cerca de 100 produtores, podem abandonar a atividade ainda neste ano caso algumas medidas não sejam adotadas, dentro e fora da porteira.

Como a produção do leite está focada basicamente em pequenas propriedades, muitos ainda enfrentam com resistência o avanço da tecnologia para o aumento da produção e enxergam no setor quase que um emprego com renda mensal, o famoso cheque do leite para pagar as contas de luz, o mercado, mas não conseguem fazer, por exemplo, um acompanhamento básico financeiro da produção para saber se há lucro ou prejuízo. “Assim aconteceu comigo. Fui quebrando aos poucos e, quando vi, estava endividado. Deixei o leite, vendi as vacas, hoje com um pouco mais de experiência penso em voltar, mas só se for para ter algo que dê retorno, porque trabalho dá bastante, então precisa dar resultado”, afirma o produtor Euclides Lourenço.

Devido à baixa tecnologia para produção e a falta de controle mais rigoroso de qualidade e de higiene, o leite produzido em diversas propriedades acaba rejeitado pelos compradores ou sofre descontos na hora da venda. “A gente se preocupa com questões sanitárias e de qualidade na cadeia pecuária assim como as carnes de aves, suína, bovina, por que a gente não faz o mesmo com a qualidade do leite?”, considera o agrônomo, técnico da Emater Marco Antonio Abreu de Andrade.

Orientação

Enquanto o zootecnista Sérgio Haroldo Hein fez um trabalho de campo para identificar os principais gargalos da profissão, o agrônomo sai a campo para dar assistência técnica e orientar. Tem a dura missão de aconselhar e indicar caminhos que podem levar ao aumento de produtividade e da qualidade, diminuição do custo de produção de modo que, juntas, essas medidas possam tornar o segmento muito mais rentável, sustentável.

“Saímos de vez da crise vivida no setor em 2015, mas vez ou outra sofremos interferência com o aumento do custo de produção. Há algum tempo víamos muitas propriedades com as vacas confinadas, sendo alimentadas com silagem e ração. Isso encarecia muito a produção, enquanto a pastagem custa menos. Então temos observado uma parcela importante dos produtores migrando para a pastagem”, reforçou.

“Numa lavoura, a melhor terra sempre vai para o cultivo da soja e do milho, nunca para a pastagem. Os tratos culturais sempre são menores com a pastagem. Nossa missão é fazer com que o produtor destine parte da sua melhor área para que o gado possa se alimentar, dê o tratamento adequado para a pastagem, isso vai aumentar a produção e qualidade do leite além de ser uma excelente opção para rotação de cultura”, ressalta o agrônomo.

Medidas de proteção X mais qualidade

Na semana passada a cadeia do leite reingressou numa espécie de desespero. O anúncio da retirada da tarifa antidumping aplicada por 17 anos para a importação do leite europeu e da Nova Zelândia no Brasil, os maiores produtores do planeta, escancarou as portas para esse mercado. O Brasil é autossuficiente na produção, mas grandes indústrias compram o leite em pó do Uruguai, dos países europeus e da Nova Zelândia para a produção dos derivados como queijos, manteigas, iogurtes, em detrimento do produto brasileiro. A justificativa da indústria está pautada na qualidade e no preço.

Após render muita polêmica e reação imediata do setor produtivo, nesta semana o governo brasileiro recuou e vai sobretaxar o leite vindo desses países em 42%. A medida passa a valer hoje (14).

Representa uma ação de contenção e que protege o mercado brasileiro, mas, para o segmento, tão importante que proteger é fomentar uma cadeia que invista em tecnologia, com a qualidade e a sanidade de modo que possa alcançar tanto o mercado brasileiro como o internacional, onde há muito espaço para crescer. Para se ter ideia, em 2018 o Brasil exportou cerca de 0,2% do leite que produziu e importou quase 4% do que foi consumido, a maior parte em pó vinda da União Europeia que contava com sobretaxa para a venda do produto ao Brasil.

“Tem muito mercado, então em vez de se preocupar apenas com medidas de proteção, se pode ou não entrar o leite de outros países, é importante ter um leite de qualidade, competitivo que possa ser vendido para o nosso e para outros mercados (…) a qualidade não é uniforme. Em uma propriedade o leite é muito bom, em outra nem tanto, existem esses aspectos que também precisam ser analisados”, reforçou o agrônomo do Instituto Emater Marco Antonio Abreu de Andrade.

“Temos que transformar o leite em pó e assim vendê-lo para todo o mundo”, completa o zootecnista Sérgio Antonio Abreu de Andrade.

Além da qualidade e da sanidade que deveriam ser mais bem aprimoradas e rastreadas, outro aspecto tem pesado na conta dos ruralistas brasileiros. Um importante mercado para o leite em pó nacional se fechou nos últimos anos. Responsável por uma fatia importante das exportações, o mercado venezuelano secou com a crise que se acentuou nos últimos anos. “Precisamos chegar a mais mercados, alcançar outros países porque a produção de leite tem muito espaço no planeta. Mas precisamos aprimorar”, encerrou o zootecnista.