Setembro Amarelo: assunto deixa de ser tabu para salvar vidas

Essa é a primeira de uma série de reportagens sobre o assunto

 Reportagem: Juliet Manfrin

Cascavel – Por muitos anos foi um verdadeiro tabu falar de depressão, da tentativa e da consumação do suicídio, assunto até engavetado até nas redações jornalísticas, numa espécie de código de conduta ética para “não estimular a explosão de novos casos”.

Como o problema não deixou de existir e, pelo contrário, vem crescendo, o mês de setembro foi tingido de amarelo e passou a ser dedicado à temática.

O Setembro Amarelo tem nesta terça-feira (10) seu ponto-alto em alusão ao Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. Por esse motivo, nesta semana, o Jornal O Paraná trará uma série de reportagens sobre o acompanhamento médico, o tratamento, a história de quem venceu a doença e quem luta para deixá-la no passado, como uma etapa superada.

Depois de um período em que boa parte da imprensa não dava visibilidade a esses debates orientada por especialistas para não tratar de suicídios ou de quem atenta contra a própria vida, hoje o principal entendimento é de que é preciso falar para estimular o tratamento de uma doença que vem se tornando pandêmico.

Dentre os pontos preocupantes está o de uma parcela grande da população que não tem acesso às redes de tratamento, enquanto em outros casos o que falta é a coragem de pedir socorro com um entendimento, de quem está doente, que pode ser julgado como covarde, com medo de encarar a realidade e que tudo não passa de frescura. Mas a verdade é que estamos ficando cada vez mais doentes e mais depressivos.

Por uma razão pela qual a ciência ainda busca explicações, a maior concentração de mortes por suicídio hoje está na Região Sul do Brasil proporcionalmente ao número de habitantes. Em 2017, no último levantamento divulgado pelo Ministério da Saúde, o Paraná, Santa Catarina e o Rio Grande do Sul tinham 23% dessas mortes pelo Brasil, diante de uma concentração de 14% da população brasileira. Equivale dizer que uma em cada quatro mortes ocorrem no Sul.

Para o psicólogo Ayr Belinho, que há mais de 35 anos atende pacientes com diferentes problemas, a mudança que se pode notar foi a potencialização dos casos, ou seja, um aumento certeiro ainda por ser estratificado.

Nas próximas edições, você vai saber como alguém com depressão severa venceu a doença, como o tratamento pode transformar a vida, as mãos que podem ajudar e como os municípios estão enfrentando esses problemas.

11 mil potenciais suicidas no oeste

A OMS (Organização Mundial da Saúde) calcula que, no Brasil, 5,8% das pessoas tenham depressão. Isso justifica um mês inteiro voltado à prevenção a uma doença que muitas vezes mata de forma silenciosa, mas que é muito perigosa.

Se considerada essa proporção, somente no oeste do Estado existem quase 80 mil pessoas convivendo com a patologia. Mas o mais preocupante é que as estimativas apontam que algo próximo a 15% delas desenvolvem a doença de uma forma mais severa, o que pode levar à condição do suicídio. Ou seja, somente na região, mais de 11 mil pessoas estariam convivendo com a forma mais agressiva da depressão, de uma forma quase que enlouquecedora.

Dados preliminares de 2018 apontam para 893 casos de suicídio no Paraná em 2018; 728 pessoas do sexo masculino e 165 do feminino. Em 2017, foram confirmados 773 casos; em 2016 foram 762 e, em 2015, 715 mortes por suicídio. Ou seja, crescimento ano a ano.

De acordo com a OMS, cerca de 800 mil pessoas se suicidam por ano em todo o mundo. No Brasil, pesquisa do Ministério da Saúde, de 2016, aponta 11.433 mortes por suicídio.

O levantamento no Estado mostra que o suicídio prevalece no sexo masculino, nas faixas etárias entre 40 a 49 anos, 30 a 39 anos e 20 a 29 anos de idade.

Tratamento salva

O mais impressionante é que, com tratamento e acompanhamento adequados, nove em cada dez dessas mortes intencionais poderiam ser evitadas. “A depressão corrói e atinge cada vez mais pessoas de todas as idades. Não saber mais lidar com as frustrações da vida leva qualquer pessoa a uma condição depressiva e pior, às vezes não existem motivos aparentes, a pessoa simplesmente se mostra deprimida. Não é frescura, é preciso cuidar, tratar… Isso é muito grave e cada vez esse número cresce mais e mais”, reforça o psicólogo Ayr Belinho.

Com relação à proporção de suicídios e tentativas de suicídio, dados da OMS revelam que a cada 40 segundos uma pessoa tira a própria vida e a cada três segundos alguém atenta contra si mesmo. Existe uma média de 20 tentativas para cada suicídio efetivo.

Segundo a Sesa (Secretaria de Estado da Saúde), a depressão é o transtorno mental mais associado com o suicídio, mas não é o único.

Dia Mundial de Prevenção do Suicídio

O Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, em 10 de setembro, foi instituído pela OMS (Organização Mundial da Saúde) em parceria com a Iasp (Associação Internacional de Prevenção do Suicídio), com o objetivo de trazer uma discussão maior sobre o tema e, principalmente, promover capacitação, conscientização e sensibilização de profissionais que atuam nos serviços de saúde pública para que estejam aptos a reconhecer os fatores de risco para o suicídio.

“Em muitos casos, é possível se prevenir o suicídio, desde que todos estejam atentos ao problema. É preciso falar sobre o assunto, compartilhar as informações e mostrar que a prevenção é fundamental”, afirma o secretário da Saúde do Paraná, Beto Preto.

Durante todo o mês, a Secretaria da Saúde apoia ações realizadas pelas 22 Regionais da Saúde na programação do Setembro Amarelo, campanha nacional que destaca a prevenção do suicídio.

“O suicídio é o ato intencional de acabar com a própria vida”, afirma a psicóloga Flávia Figel, da Sesa. Segundo ela, a prevenção do suicídio deve ser feita em rede: “Inclusive, esse é o tema da campanha deste ano – Trabalhando Juntos para prevenir o Suicídio. A atenção não deve se limitar aos profissionais da área da saúde; é preciso o envolvimento de todos que estão próximos da pessoa em situação de risco, como professores, amigos e familiares”.



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