Rússia: queda de braço entre COI e Wada mantém indefinição

RIO – O maior escândalo de doping da história do esporte, protagonizado pela Rússia, desencadeou um atrito sem precedentes entre o Comitê Olímpico Mundial (COI) e a Agência Mundial Antidoping (Wada), às vésperas da Olimpíada de 2016. Em resposta às categóricas críticas do presidente do COI, Thomas Bach, que jogou nas costas da Wada toda a responsabilidade sobre a confusão em relação a quais atletas russos serão permitidos participar dos Jogos do Rio, a agência afirmou que agiu prontamente assim que teve condições e elementos suficientes para isso. No domingo, Bach havia criticado a Wada, fundamentalmente, por ter divulgado um relatório recomendando o banimento de toda a delegação russa da Olimpíada a menos de um mês dos Jogos – em 18 de julho. Nesta segunda-feira, a agência afirmou que, apesar de compreender que ?a data da publicação do Relatório McLaren foi desestabilizante para diversas entidades, na preparação para os Jogos Olímpicos e Paralímpicos, a Wada gostaria de esclarecer que agiu imediatamente sobre as alegações relacionadas à Rússia assim que teve provas corroboradoras e o poder de fazê-lo guarnecida pelo Código Mundial Antidoping (Code, na sigla em inglês)?.

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DoppingDe acordo com um comunicado emitido ontem, o presidente da Wada, Craig Reedie, afirmou que, ?somente após a rede CBS (no programa 60 minutes) e o New York Times publicarem, respectivamente, em 8 e 12 de maio de 2016, reportagens com as revelações do ex-diretor do laboratório antidoping de Moscou e de Sochi, Grigory Rodchenkov, que a Wada obteve provas concretas sugerindo o envolvimento do Estado russo, permitindo o início da Investigação McLaren, o que fizemos imediatamente?, referindo-se ao professor Richard H. McLaren, autor do relatório.

CLIMA TENSO

Era a resposta da Wada a Thomas Bach, que no domingo havia afirmado que ?O COI não é responsável pelo fato de diferentes informações dadas à Wada há alguns anos não terem sido apuradas?.

– O COI também não é responsável pelo credenciamento ou supervisão dos laboratórios antidoping. Então, o COI não pode ser responsabilizado nem pelo relatório ter sido emitido há poucas semanas, nem pelos incidentes com os quais temos que lidar a alguns dias dos Jogos – enfatizou Bach, ressaltando não ter conversado ?com qualquer autoridade governamental russa? antes ou depois da publicação do relatório McLaren.

No comunicado de ontem, o presidente da Wada reage à acusação:

– Deve-se entender que o Dr. Rodchenkov foi ouvido várias vezes em 2015, e que ele nunca forneceu as informações que mais tarde revelou ao New York Times, em em maio de 2016. Esta informação foi posteriormente corroborada pela Investigação McLaren, que também desvendou uma implicação mais ampla do laboratório de Moscou.

O comunicado de ontem explica que a investigação não avançou como poderia antes da veiculação das reportagens porque, ?enquanto nossa comissão independente acreditava que o doping na Rússia provavelmente não se restringia ao atletismo, e que o serviço secreto russo (FSB) estava presente dentro dos laboratórios de Sochi e Moscou, não se descobriu provas concretas no sentido de que o Estado russo manipulava o processo de controle de doping?.

A comissão, presidida por Richard W., começou a apuração sobre o doping russo em janeiro de 2015, quando a WADA ganhou novos poderes de investigação graças ao Code 2015.

?A comissão aproveitou todas as informações que os denunciantes tinham fornecido. No entanto, não havia provas concretas para se afirmar que havia a manipulação do Estado russo”, afirmou Pound, no comunicado.

Ainda de acordo com a nota, ?a comissão-executiva da Wada – composta em partes iguais por representantes do movimento olímpico e governos do mundo – apoiou a investigação independente do professor McLaren, que conseguiu a obtenção de provas tão rapidamente quanto foi possível, sempre priorizando os atletas limpos?.

– Há uma desestabilização em relação aos Jogos, o que é óbvio dada a gravidade das revelações que o professor descobriu, que tinham de ser publicadas e colocadas em prática sem mais demora – concluiu Reedie.

POSICIONAMENTOS DISTINTOS

De fato, faltando três dias para a cerimônia de abertura da Olimpíada do Rio, o número de atletas russos que vão competir ainda é incerto. A Wada havia exigido o banimento total dos atletas russos na esteira do relatório McLaren. Mas, em 24 de julho, o COI permitiu que aqueles que nunca foram pegos no doping em exames internacionais possam competir, ponderando que seria injusto punir igualmente atletas limpos e os que utilizaram drogas proibidas. A responsabilidade pela seleção dos russos aptos foi repassada às federações desportivas internacionais, que redigiram suas listas dos atletas autorizados – entretanto, esta contagem ainda não está confirmada pelo COI.

A Federação Internacional de Atletismo já excluiu todos os atletas do país filiados, inclusive a bicampeã olímpica do salto com vara Yelena Isinbayeva e o campeão do mundo dos 110m com barreiras Sergey Shubenkov. Somente Darya Klishina (salto em distância), que treina nos Estados Unidos, foi declarada elegível pela Iaaf. Outras federações internacionais anunciaram punições severas. Os oito halterofilistas russos, assim como 22 dos 28 remadores da delegação do país, citados pela Investigação McLaren, foram excluídos. As decisões das federações internacionais de boxe, ginástica, golfe e taekwondo, porém, ainda não foram anunciadas. Alguns atletas, como os nadadores Vladimir Morozov, Nikita Lobintsev e Yulia Efimova, recorreram à instância máxima jurídico-desportiva. Isinbayeva chegou a recorrer ao Tribunal Europeu dos Direitos Humanos – sem sucesso.

Segundo a Reuters, mais de 250 atletas russos, de uma equipe original de 387, tiveram permissão para participar. Já para a AFP, 117 atletas russos estão oficialmente excluídos dos Jogos do Rio, quase um terço da delegação prevista. Na sexta-feira, o ministro dos Esportes russo, Vitaly Mutko, afirmou que o país será representado no Rio por 266 atletas, em 29 modalidades. Entretanto, todos agora aguardam, ainda para esta semana, o sinal verde de um conselho de três membros do COI, escolhidos no sábado que vai dar a palavra final sobre o imbróglio russo. Isso tudo após solicitar a opinião de um especialista da Corte Arbitral do Esporte.

– A confusão reina e tudo isso é um pouco culpa da Wada – afirmou um membro de uma federação, à AFP, que não quis ser identificado. – Como é possível divulgar o relatório McLaren a apenas alguns dias dos Jogos? Isso coloca as federações numa situação muito difícil.

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