Reportagem: Juliet Manfrin

Cascavel – A Operação Cravada, deflagrada pela Polícia Federal do Paraná semana passada com a prisão de 39 pessoas, além do cumprimento de 59 mandados de busca e apreensão em residências de pessoas suspeitas de ligação com o PCC (Primeiro Comando da Capital), deve ter importantes desdobramentos.

Isso porque a Polícia Federal trabalha neste momento na análise dos documentos apreendidos. Além de depósitos bancários que identificaram que a Penitenciária Estadual de Piraquara funcionava como um centro contábil do grupo, o que mais tem consumido o tempo dos investigadores é o cruzamento das informações de uma lista composta por milhares de nomes: são os devedores do PCC.

Os esforços devem ser ainda maiores em cerca de 20% desses nomes, os considerados maus pagadores de alto gabarito, ou seja, os que devem muito à facção. Conforme a PF, nesses casos, eles costumam ser submetidos a três condições cruciais: sanar a dívida com dinheiro, pagar com a própria vida no chamado “tribunal do crime” ou executar alguém por ordem do PCC, inclusive agentes públicos, e/ou ataques no enfrentamento à segurança pública.

As investigações já revelaram entre os devedores os que executaram os dois agentes federais em execução penal que atuavam em Catanduvas. As mortes foram em Cascavel: a de Alex Belarmino em setembro de 2016 e a da psicóloga Melissa Almeida em maio de 2017. Nesses casos, os executores deviam muito ao grupo criminoso – que se intitula de partido.

Já aqueles cuja dívida é gerada por desviar dinheiro da própria facção são considerados traidores e costumam pagar com a própria vida, como aconteceu em fevereiro do ano passado com Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue.

Crimes de aluguel

A lista revela ainda alguns dos “ramos” do PCC, como a locação de material bélico e mão de obra especializada para roubo a banco. “O PCC também tem se especializado em locar os fuzis, as metralhadoras, as armas com menor potencial de destruição e, claro, com a ‘terceirização’ de pessoas para contribuir nos crimes. Por exemplo, uma pessoa que integra o PCC mas vai cometer um roubo e que não tenha sido ordenado pela cúpula da facção pode locar tudo do grupo e só pagar por esse aluguel. O valor varia muito, mas algo em torno de 10% do que foi roubado. Se não pagar, entra automaticamente para a lista dos devedores e a conta pode ser alta”, conta um policial que investiga o bando.

Dentre os casos mais peculiares estão de pessoas que acabam se apossando de verbas da facção, os que trabalham de forma direta ou indireta nos sistemas financeiro e contábil. “Independente do valor, esse é o cara que não se pode confiar, então geralmente é sentenciado à morte”, explica.

Cruzamento dos dados

A parte mais trabalhosa da investigação é porque os devedores estão identificados com seus nomes de batismo na facção. “O trabalho é cruzar dados, entender quem é de fato a pessoa pelo código de batismo e saber que tipo de dívida ela tem com a facção. Assim entenderemos de que forma deverá pagar”, explica um dos agentes que investigam a lista.

A maior parte dos devedores deve uma ou outra “cebola”, que, na gíria da facção, significa a mensalidade paga pelos membros, exceto os que estão presos. Nesses casos, o pagamento tem potencial ofensivo menor, mas que não podem ser ignorados.

Os serviços de inteligência já identificaram que os devedores de “cebolas” costumam quitar suas pendências com a entrada de celulares em cadeias e penitenciárias e são justamente esses aparelhos que permitem aos líderes das facções continuarem comandando o crime mesmo detrás das grades. E como isso ocorre? Geralmente mulheres próximas desses devedores (esposas, namoradas, mães) são as que levam os aparelhos às unidades prisionais. E no caso de não cumprimento da missão? Aí as cobranças aumentam e o pagamento exige crimes mais graves.

Sem alertas

O PCC completa 26 anos no dia 31 deste mês e costuma promover ataques como forma de “comemoração”. Contudo, neste momento não há alerta para execuções ou ataques engendrados pela facção, ao menos no Paraná. Isso porque o grupo perdeu muito com os assassinatos dos agentes penitenciários. Depois desses casos, somente na região oeste do Paraná foram presos cerca de 30 suspeitos de integrar o bando e foram deflagradas duas operações. Inclusive com a desarticulação de importantes braços do grupo, descapitalizando a facção.

Além disso, os ataques respingaram no sistema prisional. Vítimas íntimas e sociais nos presídios federais de segurança máxima foram cessadas.