Com preços recordes no mercado interno e as exportações aquecidas, a avicultura vive um período dramático com a pressão dos custos. Em algumas regiões do Paraná, o prejuízo mais que dobrou desde o início do ano passado.

Conforme levantamento de dados feito pelo Sistema Faep/Senar-PR, os custos operacionais – que correspondem aos custos variáveis, acrescidos da taxa de depreciação da estrutura – dispararam. Isso porque as matérias-primas dos aviários e dos equipamentos – como aço, itens da construção civil e componentes eletrônicos – acompanham a flutuação cambial e, na maioria das regiões, os custos operacionais aumentaram de 20% a 33%.

Em Toledo, por exemplo, os custos operacionais na produção de frango pesado subiram 28%. Com isso, o saldo negativo dos produtores, que era de R$ 0,11 por quilo de frango em novembro de 2019, saltou para R$ 0,27/kg.

“Em praticamente todas as integrações, o produtor passou a receber mais pelo frango entregue. Mas o que a gente percebe é que o valor da depreciação aumentou de forma muito mais intensa. E a depreciação é um fator que não dá para se desconsiderar. Sem investimentos, o avicultor não produz com eficiência, vai ter mais mortalidade, perda na remuneração por meritocracia. Em uma atividade de competitividade, esse cenário pode inviabilizar a produção”, aponta a técnica Mariana Assolari, do Detec (Departamento Técnico) do Sistema Faep/Senar-PR e que acompanha a cadeia produtiva da avicultura.

O presidente da CT (Comissão Técnica) de Avicultura da Faep, Diener Gonçalves de Santana, diz que o produtor que não tem financiamento consegue se manter graças ao capital de giro e ao aumento do número de lotes alojados por ano. Só que, para quem tem dívidas, a preocupação é severa. E ele alerta: no longo prazo, isso pode impactar no desempenho da avicultura paranaense, como um todo, que hoje é líder nacional na produção de frangos.

“Temos casos em que o produtor financia um aviário para dez anos. Antes disso, a indústria já entra com adequação, com novas tecnologias. Mas o que vem sendo pago ao avicultor é insuficiente para cobrir as despesas desses reinvestimentos. Em qualquer região que você pergunte, a resposta é igual: a cada dia, a cobrança por readequações aumenta, enquanto os ganhos não vêm na mesma velocidade”, aponta Santana.

“O mercado e agroindústria visam à eficiência, que sempre demandam por tecnologia, equipamentos de iluminação, exaustores e genética. O produtor é obrigado a se adequar ao pacote tecnológico, o que exige investimentos constantes e, assim, deprime os ganhos. Teria que haver uma remuneração ao produtor pelas adequações feitas nos aviários”, sugere o engenheiro agrônomo Gumercindo Fernandes Júnior, consultor do Sindicato Rural de Londrina e atende a 60 avicultores da região norte. “Do jeito que está, o produtor não consegue acompanhar”, sintetiza.

Participação

O levantamento dos custos de produção foi feito por videoconferência em integrações de nove localidades: Cascavel, Cambará, Campo Mourão, Campos Gerais, Chopinzinho, Cianorte, Londrina, Paranavaí e Toledo.

Lucros do setor não chegaram aos produtores

Com o dólar alto e o aumento da demanda por proteínas animais no mundo, a avicultura brasileira passa por um bom momento. O preço da carne bovina disparou e o frango passou a ser um substituto imediato, aquecendo o mercado interno.

Desde novembro de 2019, o preço do quilo de frango congelado aumentou 62%, segundo o Cepea (Centro de Pesquisas Econômicas Aplicadas). No mercado internacional, a avicultura também teve bom desempenho. Apesar disso, os produtores reclamam que esses ganhos pararam quase que integralmente na agroindústria e não chegaram ao bolso dos avicultores. “O repasse do que as exportações estão rendendo não está chegando ao avicultor. A indústria está se valendo do fator cambial e da qualidade da produção, mas o produtor, em si, não está sendo beneficiado por esse aumento”, avalia o consultor Gumercindo Fernandes Júnior.

Mariana Assolari, técnica do Detec do Sistema Faep/Senar-PR, pondera que os custos da agroindústria também aumentaram. Insumos fornecidos pelos integradores, como ração, medicamentos e suplementos, são comprados em dólar e, por conseguinte, ficaram mais caros.

“Para que o produtor enxergue o todo e para que a gente tenha uma visão clara, seria fundamental que a indústria abrisse seus cálculos, a composição de todos os custos. Hoje, a gente tem ideia de que os custos das integradoras também aumentaram, mas não sabe a dimensão real”, observa.

Para Diener Santana, presidente da CT de Avicultura da Faep, o caminho é ampliar as negociações por meio das Cadecs (Comissões para Acompanhamento, Desenvolvimento e Conciliação da Integração): “As negociações estão acontecendo. O produtor precisa parar de se vitimizar. Tem que arregaçar as mangas e se perguntar o que ele pode fazer para mudar a realidade. Se nos unirmos, os objetivos serão alcançados de forma mais fácil e rápida”, ressalta.