A mistura de política e má gestão pública e as manifestações sindicais ou corporativas, delas derivadas, são, obviamente, muito indigestas.

As Olimpíadas do Rio 2016 não são meras atividades voltadas para o entretenimento interno, mas sim um passo decisivo para mostrar ao mundo o nível de competência e avanço organizacional do país.

Partindo-se desta premissa, o governo do Estado do Rio e seus gestores deveriam ter envidado, ao máximo, todos os cuidados e esforços administrativos no sentido de se evitar expor negativamente a sociedade fluminense e a nação brasileira.

Não se trata de oportunismo ou interesse pontual o fato de os servidores públicos estaduais ? notadamente aqueles ligados à área de segurança pública ? manifestarem a dura realidade que enfrentam por não receberem seus salários em dia. Sobretudo em razão da crucial importância de tais forças em um evento da magnitude da Olimpíada e dos chamados ?legados olímpicos? alardeados como heranças para a cidade.

Deletéria se mostra, sim, a abordagem do governo do estado para com os seus servidores dessa área, que diariamente ? e num recorde olímpico ? são mortos e feridos pela marginalidade que parece não se incomodar com a política de segurança que se busca implantar, pois sua implementação vai muito além dos órgãos de segurança pública.

Se os serviços são tidos como essenciais, a remuneração daqueles que os executam também o são.

Os órgãos de segurança pública se encontram hoje sem data para receber o restante dos salários, sem papel para imprimir ocorrências, sem gasolina para operar suas viaturas e sem dignidade para encarar e sustentar suas famílias, que diariamente recebem notícias de mortes de entes queridos ou de atentados contra eles.

O que se estranha é o fato de se considerar ?irresponsável? um movimento justo e legítimo que pugna pelo pagamento de salários, e não por melhorias salariais.

O que se estranha é o fato de se colocar um dever do estado acima de uma obrigação funcional, a obrigação de pagar os salários àqueles que cumprem com o seu dever.

Os limites da civilidade em nossa cidade já se encontram extrapolados de há muito tempo, pois o mau exemplo começa por parte daqueles que deveriam emprestar à gestão pública a mesma seriedade dos negócios privados. Estamos prestes a submeter os nossos visitantes e convidados ao mesmo grau de incivilidade com o qual convivemos no nosso dia a dia da segurança pública. Será que tudo isso já não seria irresponsável e contraproducente contra a Rio-2016?

Alexandre Neto é delegado de polícia aposentado e integrante do Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado do Rio de Janeiro