
Cascavel e Paraná - A conhecida expressão “dinheiro não dá em árvore” costuma ser usada como ferramenta pedagógica por pais e como ironia em conversas de bar. Serve para lembrar que recursos são finitos, exigem esforço, planejamento e escolhas. Pelo menos em tese. Na prática, em Cascavel, a frase parece ter ganhado releitura oficial neste Natal: o dinheiro pode até não brotar em árvore, mas certamente pode ser pendurado nela — desde que seja grande, iluminada, flutuante e cara. Muito cara!
Neste ano de 2025, um gasto milionário chamou a atenção de boa parte da população e reacendeu o velho debate sobre “prioridades”. Instalou-se no meio do Lago Municipal uma árvore flutuante de 24 metros de altura, “inaugurada” apenas dez dias antes da véspera de Natal, no domingo, 14 de dezembro. Um símbolo natalino vistoso, iluminado e, sobretudo, caro: R$ 975 mil por um período de pouco mais de 20 dias. Uma média de quase R$ 100 mil por noite para lembrar aos cascavelenses que o espírito natalino também aceita “PIX robusto”.

Precisa concorrer?
E a pressa não foi coincidência. Com Londrina ostentando o título de maior Papai Noel do mundo, Cascavel decidiu entrar na disputa simbólica do “Natal mais chamativo”, ainda que em cima da hora. Afinal, quando falta tempo, sobra justificativa — e quando sobra dinheiro carimbado, falta questionamento (e planejamento) prévio.
Do ponto de vista econômico, o número impressiona menos pelo total e mais pela proporcionalidade. Em um país cujo salário mínimo é de R$ 1.518, o custo diário da árvore equivale a cerca de 650 salários mínimos. No total, são aproximadamente 650 salários mínimos flutuando serenamente sobre o lago. Um luxo natalino que não dialoga exatamente com a realidade de ruas esburacadas, políticas públicas capengas e demandas históricas na fila de espera.
Não por acaso, vídeos e comentários nas redes sociais viralizaram rapidamente. A pergunta era quase unânime: por que investir quase um R$ 1 milhão em um adereço temporário enquanto problemas estruturais seguem permanentes? Buracos no asfalto, que mais lembram um queijo suíço, a causa animal abandonada e a escassez de ração no Banco de Ração foram apenas alguns exemplos lembrados pela população — aquela que paga impostos o ano inteiro, não apenas em dezembro.

Dinheiro carimbado pra isso?
A secretária municipal de Cultura, Beth Leal, explicou que o recurso veio do Estado com destinação específica: turismo. Ou seja, não poderia ser aplicado em saúde, infraestrutura ou políticas sociais. De acordo com documento obtido pelo Hoje Express, a solicitação do recurso partiu diretamente do prefeito Renato Silva ao secretário de Estado do Turismo, Leonaldo Paranhos, no dia 13 de outubro; já no dia 14 de outubro veio a resposta positiva: liberado!
Ofício do prefeito pediu apoio às festividades natalinas, sem especificar nada.
O argumento técnico é válido, mas não elimina a crítica central: se o dinheiro é carimbado, a decisão política sobre como gastá-lo ainda é local. E optar por uma árvore flutuante milionária foi exatamente isso: uma escolha.
A árvore, para quem aprecia dados técnicos, tem 24 metros de altura, estrela de 3 metros, base de 10,5 metros de diâmetro, mais de 150 metros de cordões de LED e estrutura de aço carbono. Resistência a intempéries não faltou — o que faltou foi resistência às críticas.
Mais um roubo!
Como se o roteiro já não fosse suficientemente simbólico, no dia da inauguração ocorreu um “pequeno detalhe”: os cabos de energia submersos foram roubados – um velho problema na cidade. Gastou-se R$ 1 milhão com o enfeite e faltou segurança na região no lago que, não poucas vezes, tem os fios da iluminação pública roubado, assim como já aconteceu com escolas, Cmeis e unidades de saúde.
Com o roubo descoberto minutos antes da grande festa, a empresa responsável pela instalação, a A.A. Distribuição e Importação de Artigos de Decoração Ltda, de Londrina, única participante e vencedora da licitação, colocou um barco na água e restabeleceu a energia. Tudo resolvido. Menos o constrangimento público. Nas redes sociais, o sarcasmo veio fácil: para muitos, o verdadeiro furto não foi o do cabo, mas o do valor pago pelo aluguel da árvore.
O episódio gerou ainda mais questionamentos pelo fato de o local contar com Guarda Patrimonial, rondas da Guarda Municipal e câmeras de monitoramento. Será que falta investimento da segurança???
Comércio à meia-luz
Enquanto o Lago Municipal brilha, o restante da cidade permanece na penumbra natalina, com exceção do “centrão” – Avenida Brasil entre as ruas 7 de Setembro e Barão do Cerro Azul, que está “um brinco” no quesito decoração. Comerciantes reclamam que a decoração ficou concentrada em poucos pontos, deixando de irradiar o espírito — e o movimento — para outras regiões. Entradas importantes da cidade não têm enfeites: frustrante!
Para muitos lojistas, a principal data do ano passou longe da vitrine. As tradicionais luzes da Avenida Brasil, que por anos encantaram famílias e impulsionaram o comércio, ficaram no passado. Em 2023 ainda existiam. Em 2024, reduziram. Em 2025, encolheram…

Bambu e R$ 3,5 milhões para pagar
Pelo segundo ano consecutivo, Cascavel apostou no bambu como identidade estética natalina: capivaras, pássaros e árvores estilizadas. Sem a árvore flutuante, o custo da decoração já supera R$ 2,6 milhões. Com ela, o investimento chega a R$ 3,593 milhões — um salto significativo para algo essencialmente efêmero.
A secretária defende que o “Natal de Luz e Paz” vai além da estética e simboliza consciência, sustentabilidade e praticidade. Argumentos válidos, embora difíceis de conciliar com um aluguel milionário de poucas semanas.
O fato é que a árvore flutuante virou o símbolo perfeito do Natal cascavelense de 2025: grande, iluminada, cara e muito questionada. E talvez tenha cumprido seu papel principal — não o de unir a cidade, mas o de escancarar uma pergunta que segue sem resposta clara: quando sobra dinheiro, falta prioridade ou sobra desconexão?
Resta saber o que virá nos próximos anos. Vai que Cascavel decide competir com Londrina também no Guinness. Afinal, se o dinheiro não dá em árvore, pelo menos parece saber flutuar muito bem.