Em um ano em que uma pandemia alterou a rotina de todas as pessoas, desafiou gestores e mergulhou o mundo em uma crise econômica, as entidades de classe resolveram ouvir mais de perto o que os candidatos a prefeito têm a dizer. Em Cascavel, a Amic organizou uma sabatina com cinco dos oito postulantes à prefeitura, e apresentou questões específicas ao dia a dia dos micros e pequenos empresários. O resultado não foi exatamente o esperado: “A percepção mais negativa que a gente teve é que a pequena empresa não é o foco de desenvolvimento de projeto de política pública, ela é fonte de recursos. Se apertar a receita do município e faltar dinheiro, fazem ações para aumentar a arrecadação através do aumento de impostos. No final, quem paga a conta é o pequeno empresário”, avalia o presidente da entidade, Sandro Viapiana.

Em entrevista ao Jornal O Paraná, Viapiana também fala sobre os desafios para este fim de ano e 2021 e as mudanças que a própria Amic prepara, dentre elas a expansão da abrangência para municípios num raio de até 150 km de Cascavel. A íntegra da entrevista está disponível no site do Jornal O Paraná.

O Paraná – A Amic foi responsável por um grande trabalho quando da criação da nova legislação trabalhista. Como foi essa participação?

Sandro Viapiana – A entidade tem uma participação efetiva no mundo do pequeno e do microempresário. Eu destaco a “Carta Cascavel”, elaborada pela entidade e seus pares, como uma das ações mais relevantes e que foi submetida à equipe que trabalhou na nova legislação trabalhista do País. Entramos com 30 pedidos que foram considerados, assim, ajudamos na edição da nova legislação. Isso foi uma vitória para a nossa classe. Além disso, participamos do Fórum Permanente de Pequenas Empresas que ocorre em Curitiba e trabalhamos juntos para a edição da Lei de Licitações Públicas para Pequena e Microempresa.

 

O Paraná – Em tempos de eleição, como a Amic percebe a presença de novos líderes dentro da própria entidade?

Viapiana – É importante ressaltar que toda a diretoria faz um trabalho voluntário. Nós percebemos que há uma escassez de lideranças e essa é uma preocupação da entidade. A gente precisa renovar e, para isso, é preciso ter um perfil de empresário que se ajuste às nossas necessidades. Quando a gente convida alguém para fazer parte da direção, 99% têm ótimas ideias, as queixas e os pleitos são perfeitos. O problema é que, chega na hora de vir para trabalhar, eles não têm essa disponibilidade ou dizem “Isso daí não é pra mim”. Há uma necessidade de criarmos um processo seletivo de inclusão, não só na hora de montar a chapa, mas que isso seja contínuo e que haja renovação. Há uma preocupação que a entidade envelheça, não de idade, mas de ideias.

 

O Paraná – As sabatinas com candidatos a prefeito de Cascavel mostraram a força do micro e do pequeno empresário cascavelense e do associativismo. Como foi essa experiência?

Viapiana – Percebemos que temos bons candidatos, com particularidades que se destacam, porém, quando trouxemos a discussão para a seara da micro e da pequena empresa, nivelou por baixo e as soluções que eles apresentaram são soluções que vêm sendo tratadas há décadas. A gente leu os planos de governo, sabatinou os candidatos e, quando trouxeram as soluções, não vimos que aqueles discursos apresentados vão conseguir fazer intervenções positivas dentro desse setor, que tanto necessita.

 

O Paraná – Os micros e pequenos empresários são relegados a segundo plano?

Viapiana – A percepção mais negativa que a gente teve durante a sabatina com os candidatos é que a pequena empresa não é o foco de desenvolvimento de projeto de política pública, ela é fonte de recursos. Se apertar a receita do município e faltar dinheiro, eles fazem ações para aumentar a arrecadação através do aumento de impostos. No final, quem paga a conta é o pequeno empresário. Com a sabatina, nós mandamos a informação para a classe política e para a classe empresarial. Dos 45 mil CNPJs existentes hoje em Cascavel, 90% são de pequenas e microempresas. E a particularidade é que a maior parte delas é do setor de serviços e varejo. Se o pequeno empresário for esperar da classe política, tudo é tão vago que vira uma coisa inconsistente. Não se iludam. Vamos fazer um movimento diferente para neutralizar a situação. Por outro lado, mandamos recado também para a classe política, ou seja, se estiver bem intencionado e com vontade política, existem alternativas para retomar o crescimento e a entidade pode contribuir, caso contrário, podemos fazer movimentos opositores.

 

O Paraná – Sucessão. Entrega do cargo em janeiro e um pequeno balanço dos dois anos a frente da Amic.

Viapiana – Foram dois anos de muito trabalho. A reforma administrativa foi um dos pontos principais que nós trabalhamos nesse período. Nós pegamos a entidade com um status de desempenho e resultados. Ficamos praticamente um ano e meio analisando o que estávamos fazendo internamente e implementando melhorias. Nós fizemos mudanças radicais na parte administrativa. Tivemos a aprovação de um novo estatuto. Mudamos a personalidade jurídica da Amic e essa nova personalidade vai mudar o nome e a presença da entidade. Desde o mês passado, passamos a nos chamar Amic Paraná. Nós vamos fazer um projeto de expansão no território paranaense. Inicialmente já em dezembro vamos expandir para 34 municípios distantes até 150km de Cascavel. Por isso, as mudanças de estatuto e personalidade jurídica. Vamos lançar até o fim do ano um E-commerce na área de saúde. Estamos com a nova sede praticamente pronta. A intenção é fazer a inauguração com a posse da nova diretoria em janeiro. Foram dois anos bem trabalhados.

 

O Paraná – O que aguarda para o ano de 2020?

Viapiana – Eu diria que o micro e o pequeno empresário é peça fundamental para a economia de Cascavel. Não vai ser essa crise que vai nos abalar. Nós precisamos trabalhar com otimismo e foco porque a crise é temporária, vai passar, e vamos deixar nossa cidade, nosso estado e nosso país mais prósperos e um mundo melhor para morar.

 

A Amic

A Amic (Associação de Microempresas e Empresas de Pequeno Porte do Oeste do Paraná), fundada no dia 25 de maio de 1984, conta hoje com 2.500 associados e cerca de 30 mil usuários. Já são 36 anos de existência de uma entidade que luta pela valorização dos micros e dos pequenos empresários. Cascavel possui atualmente cerca de 45 mil CNPJs e quase 90% são de micros e pequenas empresas.