Hoje amanheci, fiz uma ligação e ouvi assim: “Estou velho! 61 anos, filha”. Reparei que, hoje, a idade do meu pai combina com a minha. Eu fiz 32. Vezes dois, menos um, 61 e 32. Ele me diria, agora, que sou ruim de matemática, mas eu sou de humanas e ele biológicas, ninguém pode criticar a matemática de ninguém aqui.

Com a minha idade, meu pai já era meu pai, mas eu ainda não sou mãe de ninguém. E por qual motivo estou aqui falando isso para você, leitor/leitora? Porque meu pai, aos 32 e aos 61 anos, tem muito a ver com o fato de eu ainda não ser mãe. Vem que eu te explico.

Aos 32 anos meu pai era um jovem pai, cheio de energia e muito criativo. Lembro das tardes fazendo pipa, jogando futebol, desenhando, pintando, caçando balão pela cidade, indo para o aeroporto ver algum avião decolar, viajar só para comer Mc Donald’s. Éramos três, depois foram quatro filhos. Muita energia.

Na puberdade, foi meu pai foi quem me ensinou a colocar uma camisinha, me alertou sobre os riscos de não usar preservativo, HPV ou sobre como seria uma gravidez precoce. Eu compreendi. Na época eu estava prestando vestibular de Direito e estava com uma baita gastrite. Deitadinha no sofá, ele me olhava sereno.

O tempo foi passando e meu pai ainda me deu outras lições silenciosas sobre a minha própria maternidade futura. Para mim, ele foi um jovem pai, mas para meu último irmão, ele foi um pai mais maduro. Eu fui a primeira, “bebê” foi o último, e ainda que o mesmo pai, várias versões dele fizeram parte da nossa história e vejo como a nossa criação foi diferente justamente por conta disso. Papai aos 40 era mais tranquilo, mais reflexivo, mais conversador, mais provocativo, era de desenho, leitura, estudo, um pouco menos futebol e mais Fórmula 1 aos domingos, sentado na sala.

Fazendo aqui uma analogia com o Rock que ele sempre nos ensinou, digamos que ele foi um pai mais “wish you were here” comigo, talvez como duas almas perdidas tentando entender aquela primeira paternidade responsável, e mais “another brick in the wall” com meu irmão, um pai que já atravessou oceanos, mas com muitas lembranças e que continua nos ensinando a subir esse muro da vida.

Hoje, aos 61, ele continua me dando lições sobre minha própria maternidade, mesmo sem saber. Passo a vê-lo não só como pai, mas também como futuro avô. Quando ele me chama de “filha”, às vezes essa palavrinha ressoa em mim em um outro lugar e me deixa um pensamento ligeiro de que um dia eu estarei no lugar que ele está. Sinto como a criatividade dele, hoje lambuzada de tinta, moldou a mim e aos meus irmãos de forma diferentes e igualmente potentes, sempre guiadas pelo amor, pela compreensão e, essencialmente, pelo diálogo aberto e transparente. A lição direta e clara sobre a gravidez na adolescência me fez pensar no momento exato para ser mãe e ele ainda não chegou, mas, aos 32, certamente me preparo para ser mãe tendo um pai muito legal aos 61.

Parabéns, meu velho!