São Paulo – O Butantan planeja submeter a ButanVac ao crivo da Anvisa para uso emergencial no fim deste ano. Se até lá a vacinação nacional contra a covid-19 estiver suficientemente avançada, diz o diretor do instituto paulista, Dimas Covas, doses do imunizante poderão compor os lotes da aliança internacional Gavi, responsável por distribuir antígenos a países com ampla população de baixa renda. “Nós trabalhamos com a hipótese de oferecimento dessa vacina para outros países, principalmente os países mais pobres do mundo. Se for necessária a vacina [ButanVac] para completar o esquema vacinal do Brasil, ela também estará disponível”, diz Covas.

O diretor defende que o novo imunizante dará uma grande contribuição a “uma vacinação mundial”. E diz que o fim da pandemia está atrelado a uma ampla vacinação para além dos países ricos.

Além disso, Covas diz que, “obviamente, será necessária a revacinação” contra a covid-19, assim como ocorre com a campanha anual da gripe, e que a ButanVac estará à disposição para essa nova etapa.

Nesse cenário, diz Covas, a ButanVac largaria com vantagem, pois poderá ser adaptada para neutralizar variantes. Desenhada para apresentar efetividade diante da cepa gama ou P.1, detectada inicialmente em Manaus (AM), ela poderia ser ajustada para outras mutações do vírus, como a delta, responsável pela escalada de casos na Índia no início deste ano.

Em entrevista coletiva, na semana passada, o governador João Doria (PSDB) afirmou que a vacinação paulista no ano que vem será toda feita com a ButanVac.

Outro estudo do instituto paulista é o desenvolvimento de uma vacina nos moldes da ButanVac, mas quadrivalente. Ou seja, eficaz contra três cepas da gripe e mais a covid-19. As análises dos pesquisadores foram iniciadas, mas ainda não têm data para alcançar as fases de testes em humanos – ainda é preciso que a ButanVac se prove segura e eficaz nos seus próprios testes iniciais, autorizados pela Anvisa nesta semana.

Vacina brasileira

A vacina ButanVac é o primeiro imunizante com produção de matéria-prima nacional a chegar aos testes clínicos – fase em que há aplicação da vacina em voluntários humanos. O planejamento do Butantan é apresentar o uso emergencial do imunizante tão logo sejam encerradas as fases 1 e 2 de testes, previstas inicialmente para durar 17 semanas. Os primeiros participantes do estudo, são 418 voluntários na fase inicial, passarão por monitoramento do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto.

Em relação à venda da ButanVac ao Ministério da Saúde, para incluí-la no programa de vacinação brasileiro, Dimas Covas diz que, por enquanto, não “foi atrás” da pasta do governo federal. Até este mês de julho, 10 milhões de doses da ButanVac estão prontas esperando o avanço dos testes.

“Vou tocar essa vacina independente do Ministério, como não precisamos do Ministério para tocar a CoronaVac. Neste momento, não tenho nenhum interesse em discutir [as negociações com a pasta]. É uma postura de reciprocidade. Quando estiver pronta posso até oferecer. Mas não vou depender desse ‘compra, não compra’”, diz Dimas, que garante que seguirá produzindo a CoronaVac em 2022, mesmo com a chegada da ButanVac.

Segunda dose

Anteriormente, Dimas Covas defendeu que se discutisse a aceleração da segunda dose das vacinas Pfizer e AstraZeneca – que têm três meses de pausa entre as duas etapas de aplicação – para que mais brasileiros estivessem totalmente protegidos em um tempo mais curto.

A medida se torna ainda mais necessária, defendem especialistas, diante de estudos preliminares que apontam que a cepa Delta, já identificada no Brasil, sucumbe aos anticorpos de pessoas com duas doses de vacinas aplicadas, mas não de uma. “Essa estratégia já deveria ser discutida. Ela só não está nos planos do dia porque faltou vacina [nos últimos meses]. Veja bem, tendo disponibilidade de vacina, o próximo objetivo é conseguir a imunização completa o mais rápido possível”.

De acordo com ele, esse momento de falta de aplicações já foi amenizado. E que, portanto, não discutir essa antecipação atualmente é uma “falta de inteligência”. Ele chama a adoção dessa estratégia de “óbvia” na atual realidade brasileira: “É muito óbvio pela experiência de outros países, que vacinaram parcialmente e fizeram reaberturas e tiveram que voltar atrás. Existe, obviamente, um esgotamento da pandemia, mas não é possível justificar medidas de relaxamento sem antes completar a aplicação de duas doses”.