Uma separação responsável implica assumir a dor que inevitavelmente a acompanha em vez de fugir dela pela raiva ou pela autopiedade. Escreve Hellinger: “Quando ambos os parceiros se permitem sentir a dor por aquilo que correu mal, eles poderão mais tarde conversar bem um com o outro. Num divórcio é muito importante que ambos tenham chorado e sentido essa dor profunda” (Hellinger, B. Ordens do Amor, p. 160).

Como, de forma prática, o casal pode proceder para assumir conjuntamente a dor? A melhor maneira de fazer isso é ambos fecharem os olhos e se perguntar: “O que foi bom com meu marido, com minha esposa?” Por vezes, especialmente quando o processo de separação é muito traumático, pode acontecer de os parceiros não conseguirem identificar o bom vivido durante o relacionamento. Neste caso, ajuda olhar para trás, para o início do enamoramento. Reavivar os primeiros encontros e aquilo que os moveu na direção um do outro, fazer aquela fagulha de admiração e respeito se expandir no peito, para, em seguida, tomar a decisão consciente de que o melhor caminho é a retirada. Reconhecer que o tempo de permanecer juntos se completou e que se, mesmo assim, continuarem a relação, correrão o risco de destruírem neles mesmos sua humanidade e comprometerão sua capacidade de serem pais.

Hellinger explica a sequência da dinâmica nestes termos: “Deixa-se que os dois vejam de novo o começo e o amor bem profundo que tiveram, e como lhes dói a separação. Então talvez comecem a chorar. A dor não suprime a separação, mas depois não existirão mais censuras. Então há respeito, e o casal, embora tenha se separado, fica unido como pais de seus filhos” (Hellinger, B. A fonte não precisa perguntar pelo caminho, p. 106).

Uma vez tendo conseguido reconhecer o bom do relacionamento vivido, cada parceiro deixa vir à consciência as belas imagens internas do bom e valioso vividos durante a relação e se rende à dor. Em um momento seguinte toma esse valioso consigo para o futuro como presente do seu parceiro. Aquele que olha o positivo consegue se separar do outro na alma. Aquele, porém, que olha unicamente para a culpabilidade permanece ligado ao ex-parceiro e bloqueia seu próprio caminho para um futuro novo. Aqueles que não conseguem liberar-se dos sentimentos de raiva e vingança em relação ao parceiro, ou vivem da autopiedade pela separação, dificilmente têm chances de se envolver com um novo parceiro: “O ‘inocente’ às vezes nega à ‘parte culpada’ o novo começo para não liberá-lo. No entanto, isso será um fardo para ambos” (Hellinger, B. Mein Leben. Mein Werk, 2018 – tradução nossa).

Na separação, perdoar-se um ao outro ajuda o casal a se olhar nos olhos e a se perdoar por tudo aquilo que causou dor e sofrimento um ao outro. Isso liberará mais rapidamente a ambos para o futuro seguindo o fluxo da vida. Frequentemente, quando duas pessoas não conseguem separar-se adequadamente, lhes falta a capacidade de tomar, explica Hellinger. Neste caso, aconselha ele, um parceiro deve dizer ao outro: “Tomo o que você me deu. Foi muito, o honrarei e o levarei comigo. Aquilo que dei a você o dei com prazer; pode mantê-lo e lembrar disso com amor. Assumo minha parte da responsabilidade por aquilo que não deu certo conosco e deixo com você a sua. E agora deixo você em paz” (Hellinger, B. Felicidad Dual, 2001, p. 163).

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JOSÉ LUIZ AMES E ROSANA MARCELINO são terapeutas sistêmicos e conduzem a Amparar.