AMPARAR

Coluna Amparar: Doação de órgãos

15 de abril de 2022 às 07:30
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Nas últimas postagens tratamos do tema da morte. Relacionado ao tema da morte está a questão da doação dos órgãos da pessoa que morre e o transplante desses órgãos aos que permanecem em vida. As campanhas de doação de órgãos costumam apresentar este gesto como um ato nobre, porque salva vidas. Reforça-se a ideia de que decidir-se a doar os órgãos é a atitude mais nobre e humanitária de que um ser humano é capaz.

A ênfase nestas campanhas de sensibilização centra-se sobre a ideia de que o transplante de órgãos pode ser única esperança de vida, ou a única oportunidade de recomeço, para pessoas que precisam de um órgão. Às vezes, estas campanhas chegam a ter um viés apelativo: “Hoje é com um desconhecido, mas amanhã pode ser com algum amigo, parente próximo ou até mesmo você”. Outras vezes há um apelo emocional que remete à fé: “Quando você for para o Céu, deixe seus órgãos na Terra. Afinal, anjos só precisam de asas”.

Trata-se de um tema controverso. Nosso propósito não é o de apresentar nossa posição individual. Aqui vamos sistematizar a questão a partir da perspectiva sistêmica tal como é apresentada por Bert Hellinger. Trataremos de duas questões distintas, mas que do ponto de vista sistêmico estão intrinsecamente relacionadas: doação de órgãos e transplantes.

Para começar, vamos tratar da questão da doação de órgãos. Sobre isso, a posição de Hellinger é claramente contrária: “Não se deveria absolutamente fazer algo assim como retirada de órgãos. Para mim, isso é uma intervenção que se origina da ideia de que eu deveria manter a minha vida a todo custo, também ao preço de um órgão alheio, como se eu, ao perder a minha vida, tivesse perdido tudo. Para mim, essa é uma ideia estranha. Quem, pelo contrário, encara a sua morte e está disposto a entregar-se a ela, quando chega a hora, ganha para o tempo que lhe resta a plenitude da vida, enquanto aquele que tem medo e quer adiar a morte perde muito da vida e de sua força e da felicidade profunda” (Hellinger, B. A fonte na precisa perguntar pelo caminho, p. 274).

Aqui, como vemos, a posição de Hellinger se apoia sobre sua concepção da vida e o lugar que a morte ocupa nela. Como mostramos nas últimas postagens, Hellinger chama a atenção sobre o modo como em geral as pessoas encaram a vida: lidam com ela como se devessem prolongá-la a qualquer custo, como se viver o maior tempo possível fosse necessariamente o melhor. No entanto, diz ele, “não sabemos absolutamente se é melhor, pois a vida é algo pequeno quando visto a partir do Grande. Ela provém de algo que não conhecemos. O lugar de onde vem deve ser maior do que a vida. Quando a vida termina, caímos de volta nesse Grande, que não conhecemos” (Hellinger, B. A fonte na precisa perguntar pelo caminho, p. 268).

Hellinger reflete esta questão também desde uma outra perspectiva: a partir das observações que extrai das Constelações Familiares. A esse propósito menciona um Curso no qual um homem havia feito um transplante de fígado do qual não conhecia o doador. Hellinger, então, colocou este homem e o doador frente a frente em uma Constelação. Hellinger descreve assim o resultado: “O doador se sentiu muito mal e o outro não estava disposto a agradecer-lhe. Ele disse: “Eu também tenho direito a isso”. Eu lhe disse: “Assim você não pode viver’” (Hellinger, B. A fonte na precisa perguntar pelo caminho, p. 270).

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JOSÉ LUIZ AMES E ROSANA MARCELINO são terapeutas sistêmicos e conduzem a Amparar

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