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Coluna Amparar: A origem e o fim da vida é um mistério

26 de março de 2022 às 07:35
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Cada ser humano é tomado pela vida por um curto período de tempo para ser abandonado pouco tempo depois. No final da vida, voltamos a algo sobre o que nenhuma declaração pode ser feita. Hellinger o designa por vezes de “Ser”, outras de “Causa Primordial”, ou ainda “Fundo Último”. Comparado à profundidade de onde viemos através de nossos pais a duração da vida é algo incomparavelmente curto e temporário. Isso indica o sem-sentido da ideia que algumas pessoas têm de que aqueles que vivem muitos anos gozam de vantagem em relação aos viveram por um tempo muito breve, ou até nasceram mortos.

Para Hellinger, “a morte é maior que a vida. O reino dos mortos é o maior reino e é aquilo que permanece. A vida é algo transitório, algo que emerge e torna a submergir. O grande é aquilo de onde emerge a vida, e o grande é aquilo em que ela mergulha e torna a submergir. Aqueles que morreram precocemente não perderam nada, como se aqueles que têm vida longa tivessem uma vantagem frente àqueles que viveram pouco. Pois aqueles que tiveram uma longa vida imergem exatamente de volta à origem, assim como aqueles que viveram pouco tempo” (Hellinger, B. A fonte não precisa perguntar pelo caminho, p. 269).

Quando temos essa imagem podemos lidar com a vida e a morte mais serenamente. A vida, como dissemos, é uma dádiva que está fora de nosso alcance fazê-la durar por um tempo maior que o destinado a ela. Muitas vezes, diante da morte precoce de um ente querido, ouvimos o lamento do que ele perdeu. Em relação a isso escreve Hellinger: “Os mortos precocemente deixam vestígios que, frequentemente, são mais profundos do que os vestígios daqueles que em vida fizeram algo grande. Vestígios totalmente silenciosos e profundos” (Hellinger, B. A fonte não precisa perguntar pelo caminho, p. 208). Quando concordamos com a imagem de que somos colocados a serviço por algo maior, por aquilo de onde a vida emerge, não importa mais se o serviço é longo ou se é curto, porque, seja como for, esse tempo é insignificante em comparação àquilo de onde a vida emerge e para onde ela retorna.

Em suma, como se lida com a morte em vida? Como dissemos, antes de tudo considerando que a vida tem precedência sobre a morte. Depois, entregar-se à morte quando a hora chega, não antes. Quem olha para a morte durante a vida trai sua alma que quer que cada um realize na plenitude o que lhe está destinado. Também compreender que a duração do tempo de vida é irrelevante quando comparado ao Ser de onde ela emerge. Finalmente, aceitar que a vida retorna de onde ela veio. A vida enquanto uma energia é indestrutível, o que é o mesmo que dizer que é eterna. O que vemos nascer e morrer é a forma física de algo espiritual: a vida, cuja origem e fim são um mistério para nós.

Para concluir, vamos transcrever a passagem que Hellinger escreveu poucos meses antes de retornar, como ele diz, à “Causa Primordial”: “A vida diante da morte é, portanto, a vida diante da despedida. Mas essa despedida não é uma perda, é uma antecipação da plenitude vindoura. E isso torna possível o futuro. Também poderíamos dizer que ela nos leva de volta ao princípio, assim como a morte. Isso é tudo a mesma coisa aqui. Temos êxito nessa despedida quando celebramos como um hino de louvor o Todo, a vida e a morte, o ir e o vir, o perecer e o permanecer” (Hellinger, B. Mein Leben. Mein Werk, Ariston eBook, 2018 – tradução nossa).

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JOSÉ LUIZ AMES E ROSANA MARCELINO são terapeutas sistêmicos e conduzem a Amparar

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