Acordo europeu marca “nova fase” do Mercosul

Brasília – O longo e sinuoso caminho para o acordo comercial entre União Europeia e Mercosul ganhou contornos definitivos neste início de 2026, mas não sem simbolismos políticos. O governo brasileiro confirmou, por meio de nota conjunta do Itamaraty e do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, o avanço das etapas que permitirão a assinatura do tratado após a decisão do Conselho da EU (União Europeia).

A manifestação ocorreu poucos dias depois do esvaziamento da cúpula do Mercosul em Foz do Iguaçu, no final de 2025 — encontro marcado por ausências, adiamentos e tensões internas, que havia reforçado a percepção de que o bloco sul-americano perdia tração no cenário internacional.

O acordo — negociado intermitentemente por mais de 26 anos — prevê a convergência de dois blocos que, juntos, somam cerca de 720 milhões de consumidores e um PIB estimado em US$ 22 trilhões, configurando uma das maiores zonas de livre comércio do planeta. Para o governo brasileiro, a aprovação europeia representa um gesto político robusto e recoloca o Mercosul no radar global após sucessivas frustrações diplomáticas ao longo de 2025.

Momento sensível

A UE ainda precisará cumprir etapas sensíveis. Embora o sinal verde no Conselho represente avanço decisivo, o pacto passará pelo crivo do Parlamento Europeu, onde setores ambientalistas e agrícolas já indicaram disposição para contestar os termos, especialmente no que toca à concorrência de commodities sul-americanas e aos impactos sobre a agenda de descarbonização. Críticas similares foram responsáveis por engavetar tentativas anteriores de assinatura.

Mesmo com resistências, o texto foi liberado para assinatura formal após uma coalizão de países europeus — liderada por Alemanha, Espanha e Itália — defender flexibilizações e salvaguardas ao agronegócio europeu. A França, a Irlanda e a Hungria se opuseram ao pacto, enquanto a Bélgica se absteve. Negociações paralelas amarraram um acordo político para permitir que a UE responda rapidamente a possíveis “perturbações de mercado” caso setores sensíveis sejam pressionados pelo aumento de importações oriundas do Mercosul.

“Alívio”

A leitura em Brasília é de que a diplomacia europeia optou por destravar o processo para evitar desgaste adicional às vésperas das eleições continentais de 2026. O anúncio, por sua vez, ajuda o Mercosul a dissipar a imagem de isolamento que pairou sobre o bloco desde a cúpula de Foz do Iguaçu — marcada pela ausência de chefes de Estado e pela sensação de que os países sul-americanos sentiam dificuldade em alinhar prioridades comerciais.

Repercussão no Brasil

No Brasil, a repercussão entre auxiliares presidenciais foi celebratória. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, qualificou o pacto como “histórico”, ressaltando o papel geopolítico do acordo como alternativa ao protecionismo crescente em grandes economias. Para Haddad, abre-se “uma nova avenida de cooperação” em meio à fragmentação global e às turbulências do comércio internacional.

A ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, argumentou que o acordo representa um “divisor de águas” para o multilateralismo, capaz de combinar expansão econômica com sustentabilidade e inovação. Segundo ela, o pacto tende a ampliar o acesso a mercados, atrair investimentos e aumentar a competição — movimento que, na visão do governo, ajuda a pressionar preços internos e melhorar a produtividade.

O posicionamento fortalece a estratégia de inserção externa do Brasil, que desde 2024 busca diversificar parceiros e recuperar protagonismo em agendas de integração. A leitura é compartilhada por setores industriais: a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) divulgou nota celebrando o avanço e afirmando que, embora o texto não seja “perfeito”, representa o melhor acordo possível diante da necessidade de conciliar interesses de 31 países e realidades produtivas distintas.

Próximos Passos e Desafios

O Paraguai, que assumiu a presidência rotativa do Mercosul no final de dezembro, deve ser o anfitrião da assinatura formal nos próximos dias. A expectativa é de que Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, viaje ao país para selar o pacto. Depois disso, o tratado seguirá para análise dos Parlamentos nacionais e do Parlamento Europeu, onde seu destino dependerá da capacidade de mobilização política dos defensores do acordo — e da conjuntura agrícola e geopolítica do continente.

Para diplomatas brasileiros, o gesto europeu tem peso simbólico adicional. Ao avançar justamente após uma cúpula esvaziada, o acordo ajuda a recolocar o Mercosul em uma agenda positiva e a reduzir a narrativa de que o bloco estaria desatualizado e incapaz de competir com mega-acordos comerciais liderados por Ásia e América do Norte.

Mesmo assim, o caminho até a implementação definitiva será longo e sujeito a disputas. As negociações sobre tarifas industriais, salvaguardas e padrões ambientais continuarão a determinar o ritmo do processo. No fim, o maior entrave permanece sendo o mesmo que travou a negociação por décadas: a política doméstica — tanto na Europa quanto na América do Sul.