Brasil gasta mais do que arrecada; gastos passam de R$ 580 bi

Brasil e Brasília - São Paulo – As despesas públicas brasileiras já ultrapassaram R$ 586 bilhões em 2026. O dado pode ser acompanhado em tempo real na plataforma Gasto Brasil, ferramenta desenvolvida pela CACB (Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil), em parceria com a ACSP (Associação Comercial e Empresarial de São Paulo), que reúne e consolida informações oficiais das três esferas de governo.

Do total apurado, mais de R$ 230 bilhões correspondem a gastos da União, cerca de R$ 160 bilhões aos estados e ao Distrito Federal, e aproximadamente R$ 175 bilhões aos municípios. Os números foram consolidados nesta primeira semana de fevereiro e englobam despesas com pessoal e encargos sociais, investimentos, inversões financeiras e outros gastos correntes necessários ao funcionamento da máquina pública.

Na comparação com a arrecadação tributária registrada pelo Impostômetro, também nesta segunda-feira, o Gasto Brasil indica que a despesa pública já supera a receita. Até o momento, a arrecadação somou cerca de R$ 480 bilhões. O Impostômetro contabiliza todos os tributos recolhidos pelas três esferas de governo, incluindo impostos, taxas, contribuições, multas, juros e correção monetária, oferecendo um retrato simultâneo da carga tributária suportada pela sociedade.

Equilíbrio fiscal

Em ano marcado por eleições e pela realização da Copa do Mundo, o governo federal deverá concentrar esforços na busca pelo equilíbrio fiscal. É o que aponta o primeiro RAF (Relatório de Acompanhamento Fiscal) do ano, divulgado pela IFI (Instituição Fiscal Independente), órgão vinculado ao Senado Federal responsável por monitorar a política fiscal brasileira.

Segundo o relatório, em 2025, o déficit primário legal — que desconsidera determinados gastos autorizados pela legislação — foi de R$ 9,5 bilhões, equivalente a 0,1% do Produto Interno Bruto (PIB). O resultado permaneceu dentro da meta fiscal vigente, que admite déficit ou superávit de até 0,25% do PIB.

Já o déficit efetivo, que considera todas as despesas sem exceções contábeis, alcançou R$ 61,7 bilhões, ou 0,5% do PIB. Embora a meta tenha sido formalmente cumprida, a IFI ressalta que o resultado efetivo pressiona a trajetória da dívida bruta do governo central, mantendo o nível de endividamento em patamar elevado.

Arcabouço fiscal

Para 2026, o projeto da Lei de Diretrizes Orçamentárias previa exceções ao arcabouço fiscal equivalentes a 6,7% das despesas. Esse percentual, contudo, foi ampliado para 8,2% na lei sancionada, representando cerca de R$ 230 bilhões em gastos excluídos das regras fiscais, o que reduz a transparência do esforço de ajuste e amplia as incertezas sobre o cumprimento das metas.

“Os parâmetros utilizados foram relativamente otimistas, e a dotação dessa despesa foi reduzida entre a fase de sanção do orçamento e a proposta original. Identificamos, portanto, riscos de aumento de contenções, seja por bloqueios, seja por contingenciamento de despesas discricionárias”, diz o diretor da IFI, Alexandre Andrade.

Reforma inevitável

Para Cláudio Queiroz, coordenador do Gasto Brasil e consultor da CACB, a necessidade de reformas estruturais tende a se tornar inevitável nos próximos anos, independentemente do governo eleito.

“Seja qual for o governo, não importa se é de direita, esquerda ou centro. Em 2027 haverá pressão para a adoção de reformas de impacto, como a administrativa e a previdenciária, além do aprofundamento da reforma tributária, já em implementação, para tentar equilibrar as contas públicas”, afirma.


Despesas obrigatórias comprimem investimentos

Despesas e Orçamento

A elevada participação das despesas obrigatórias no orçamento também preocupa a IFI. Segundo Andrade, o espaço para despesas discricionárias permanece bastante limitado, variando entre 5% e 10% do total, o que impacta diretamente a capacidade de realização de investimentos públicos.

Diante desse cenário, a IFI avalia que, em 2026, o governo federal deverá priorizar uma gestão fiscal de curto prazo e adiar medidas estruturais mais profundas, tanto do lado do aumento de tributos quanto de cortes expressivos de gastos. Com a dificuldade de obter apoio parlamentar para mudanças mais amplas, o objetivo tende a ser zerar o déficit primário, e não alcançar o centro da meta de superávit, fixado em 0,25% do PIB.

Esse patamar, contudo, ainda está distante do considerado necessário para estabilizar a trajetória da dívida pública. Pelas estimativas da IFI, seria preciso atingir superávit primário superior a 2% do PIB de forma sustentada ao longo dos anos para interromper o crescimento do endividamento governamental.