Enquanto para alguns tomar a iniciativa de dar os primeiros passos rumo ao mundo das corridas de rua parece ser tão complicado quanto se disputar uma maratona, para o professor universitário Clodis Boscarioli, de 45 anos, a passada com o intuito apenas de emagrecer logo o levou ao mundo das ultramaratonas, provas que chegam a passar de 100 milhas e 38 horas de duração.

“Consegui fazer meus primeiros cinco quilômetros em esteira em outubro de 2013. No mesmo ano ainda, fiz duas corridas de rua de 10 km e resolvi que treinaria para uma Meia Maratona [21 km], que fiz em Camboriú em abril de 2014. No mesmo ano, em novembro e dezembro, fiz minhas primeiras duas maratonas [42 km], a de Curitiba (asfalto) e a do Deserto do Atacama [no Chile]. Essa última corrida foi para mim um divisor de águas, pela dificuldade e superação e foi quando decidi que queria as longas distâncias”, conta o paranaense de 45 anos.

Pouco tempo depois, mais precisamente 13 meses após conseguir correr 5 km na esteira, Clodis fez sua primeira maratona. “Eu pensava apenas em ficar ‘no mundo das maratonas’, mas, incentivado pelo amigo Moisés Carmona, em maio de 2015 fiz minha primeira ultramaratona trail, de 55 km. Foi tudo muito rápido para quem não conhecia nada de corrida, acho eu, mas foi sem volta”.

 

Diferente não só na distância

Já experiente e recentemente de volta do seu maior desafio em três anos e meio de ultramaratonista, Clodis explica que a diferença entre provas de curta e longa distância vai muito além da distância a ser percorrida pelos atletas.

“Mais que as distâncias e o tipo das provas, dos tênis e nos regulamentos, a maior diferença está realmente nas especificidades dos treinos e nos objetivos dos atletas. Em distâncias menores, a preocupação e motivação está na diminuição do tempo, na velocidade (pace) que conseguirá manter pelos quilômetros corridos. Em distâncias curtas há muito mais competição. Em distâncias longas vejo mais cooperação entre os atletas. Há, claro,os que se preocupam em conseguir um lugar ao pódio, mas a maioria está por diversão, superação pessoal e pelo emocionante prazer de passar pela linha da chegada”.

Clodis explica ainda que as corridas mais longas exigem também mais dos atletas em relação à saúde e aptidão física, exigindo atestados médicos com as distâncias neles especificadas. Também por questão de segurança, muitas ultramaratonas exigem apresentação de currículo, que comprove experiência prévia. Outras ainda exigem qualificação (por conclusão) em provas reconhecidas para concorrer ao sorteio por uma vaga. Isso não acontece com provas menores, que aceitam inscrições até o limite de vagas.

 

A ultramaratona

Ultramaratona é o termo usado para identificar corridas de distância superior a 42.195 metros (distância oficial da maratona), mas há as distâncias mais clássicas, conhecidas e reconhecidas pelos corredores, como as de 80 km, 100 km, 100 milhas e 135 milhas, por exemplo. Há as provas de asfalto, de areia e as chamadas trail, que são corridas em trilhas e trilhos de montanha ou caminhos secundários por morros e montanhas, em contato com a natureza. A depender do tipo, vários equipamentos podem ser necessários [e por vezes obrigatórios], como blusas cortavento, mochilas, manta térmica, bastões, etc. O tempo para completar uma dessas maratonas é variável, determinado pelo seu nível de dificuldade e altimetria, e há também pontos de corte determinados, que podem retirar o atleta da prova. Há também as ultramaratonas mensuradas por tempo de duração, que variam de 6, 12, 24 a 48 horas.

Um estilo de vida

Entre os ultramaratonistas há a “brincadeira” de que o difícil não é tanto completar uma ultramaratona, e sim o desafio de treinar e preparar-se para tal. “Treinar para uma ultramaratona exige muita disciplina e determinação, para conciliar a rotina de trabalho com treinos em fadiga e abdicar um pouco, ou muito em alguns períodos, de vida social, além de ter que atentar para a alimentação e suplementação. Atletas amadores que se tornam ultramaratonistas e não vivem disso, além de arcar com as despesas de inscrição e viagens, têm que driblar o tempo para conciliar os treinos que podem variar de 1h a 4h com as suas 8h de trabalho diárias”, explica Clodis Boscarioli.

O professor universitário que se tornou ultramaratonista pela “divertida sofrência” do desafio e da superação pessoal, lembra ainda que é preciso estar em dia com os exames e ter o acompanhamento de um cardiologista – preferencialmente especializado em medicina desportiva -, além da importância de ter o acompanhamento de um profissional de educação física com conhecimento nesse tipo de preparação, para elaborar uma planilha de treinos adequada aos objetivos e tempo do atleta.

“Quando se começa a correr e conclui sua primeira prova de 5 km, correr uma maratona parece algo de outro mundo. Com a imersão, os treinos, a conclusão de uma meia maratona, vai-se achando ser factível, até que se decide se desafiar para ter o título de maratonista. Há quem conclua uma maratona e decide que não fará outra. Há os que querem fazer apenas maratonas para buscar seu recorde pessoal e há os que desejam se tornar ultramaratonista. Ser maratonista é por si só uma experiência espetacular. Tornar-se um ultramaratonista é estilo de vida e, de certa forma, um caminho sem volta…”, diz Clodis, que está se preparando agora para o seu maior desafio, em janeiro, que será a participação na BR 135, uma prova que como o nome diz, tem a distância de 135 milhas (217 km), dentro do percurso conhecido como Caminho da Fé (parte no Estado de São Paulo e parte no interior de Minas Gerais).

Desafio pessoal

A ultramaratona não é um esporte reconhecido no País, e a maioria de seus praticantes são atletas amadores, poucos com algum tipo de patrocínio. Por este motivo e, também por não serem atividades baratas (custo de inscrição, equipamentos, viagens etc.), faz com que a maior parte dos atletas tenham, em média, mais de trinta anos. Para Clodis, outro fator é que há muita resiliência e desafios pessoais envolvidos, coisas que vem muito com o passar dos anos e lições de vida.