Curitiba – No acordo de colaboração premiada que fez com o Ministério Público – e que serviu de base para a deflagração da Operação Radiopatrulha semana passada -, o ex-deputado estadual e empresário Tony Garcia diz que o deputado federal Valdir Rossoni (PSDB-PR) pediu dinheiro a ele para votar a favor de Eduardo Cunha (MDB-RJ), ex-presidente da Câmara dos Deputados, e hoje preso no âmbito da Operação Lava Jato.

Tony, que se declara amigo de Cunha, não confirma se deu o dinheiro a Rossoni, no valor de R$ 5 milhões. A defesa de Rossoni diz que o relato do delator “não é verdadeiro”. As informações são da Gazeta do Povo, que entrevistou Tony Garcia no domingo à noite.

Na delação, o episódio envolvendo Rossoni surge no momento que Tony tenta explicar aos investigadores o motivo de um estremecimento na sua relação com o ex-governador do Paraná Beto Richa (PSDB). “O próprio Beto falou para mim que jamais traria Rossoni para dentro do governo, que eu poderia cuspir na cara dele se ele fizesse isso. Porque a gente tinha sido deputado junto e ele sabia que o Rossoni só pensava em negócio e era ladrão. Porque eu tinha falado para ele que o Rossoni pediu R$ 5 milhões para mim, para votar com o Eduardo Cunha na coisa do Conselho de Ética lá (…). Mas um dia [o Beto Richa] botou o Deonilson [Roldo] para ir ao meu escritório para me convencer que ele precisava do Rossoni porque ele era pavão e precisava dele lá dentro”, disse Tony.

Eleito deputado federal nas urnas de outubro de 2014, Rossoni ficou cerca de 15 meses na Câmara dos Deputados antes de assumir a cadeira de secretário-chefe da Casa Civil no governo do Paraná, no início de 2016, da qual só saiu em abril para poder disputar a reeleição agora.

Na entrevista à Gazeta do Povo, Tony voltou a falar de Rossoni. De novo não fala sobre o dinheiro, mas dá outros detalhes sobre a atuação de Rossoni em Brasília. Segundo Tony, Rossoni contrariou o PSDB e votou a favor de Eduardo Cunha na eleição que colocou o emedebista na presidência da Câmara dos Deputados logo no início de 2015. “Rossoni queria ficar bem com o Eduardo”.

Tony também disse que, no fim de 2015, quando Cunha já era alvo do Conselho de Ética da Casa, Rossoni se ofereceu para votar a favor dele no colegiado. Rossoni teria avisado Tony que o então líder da bancada do PSDB na Casa, Carlos Sampaio (SP), havia se comprometido a oferecer dois votos de parlamentares tucanos a favor do emedebista no Conselho de Ética – um dos votos seria o de Rossoni. Em troca, a bancada do PSDB cobrava de Cunha a deflagração do processo de impeachment contra Dilma Rousseff (PT), o que aconteceu em 1º de dezembro de 2015.

“Rossoni me manda mensagem dizendo que estava em um almoço com Carlão. E que, se o Eduardo levasse o impeachment para o plenário, eles dariam dois votos no Conselho de Ética, um deles do Rossoni. Eu falei isso para o Eduardo”, contou Tony à Gazeta.

Em 15 de dezembro de 2015, Rossoni chegou a participar da votação no Conselho de Ética que aprovou o parecer preliminar pela continuidade do processo contra Cunha. O paranaense estava entre os parlamentares que votaram contra o emedebista, a favor da continuidade do caso. O parecer preliminar foi contestado e a votação anulada.

Outro lado

O advogado de Valdir Rossoni, José Cid Campêlo Filho, disse não ter conhecimento da delação, mas que o relato de Tony Garcia “não é verdadeiro”. “Vamos pedir a cópia da delação e a nulidade dela. Não aceitamos que o Ministério Público faça um acordo com um conhecido ficha suja. Também estudamos pedir uma indenização por danos morais”, antecipou Cid.