Quem quer ser chefe?

Opinião de Rafael Cosentino

Em tempos de glorificação das posições de liderança, se você perguntar em qualquer ambiente, provavelmente, a resposta será que todos os presentes querem ser o chefe, mas, afinal, o que realmente significa ser “o chefe”?

Muitas pessoas confundem a ideia de ser chefe com a de ser empreendedor, livre, dono das próprias escolhas ou desafios e, por último e melhor, dono do seu tempo! Mas, realmente, o ser “chefe”, seja no seu próprio negócio ou como executivo em uma corporação, não é todo esse glamour apresentado e, pior, por vezes, vem acompanhado de um lado obscuro e sombrio que o mundo dos reality shows não mostra na TV, as lives do Instagram omitem e a superfoto do Facebook jamais mostrará.

Ser líder de qualquer unidade de negócio vai além de apostar em diversas renúncias. Significa se transformar profissionalmente em psicólogo, advogado, consultor, parente, mentor e, ainda em momentos difíceis de tomada de decisão, quem sabe, envelhecer uns 20 anos e simplesmente não ter ninguém para compartilhar seus problemas ou atual situação de carreira ou até de vida. É fácil encontrar nas mídias sociais, “Líderes ou empreendedores de sucesso”, mas qual é a real? Onde estão os números? Cadê o mérito no seu desafio? Ainda podemos fazer outras perguntas exatamente onde se abre o abismo entre chefe e colaborador.

Os desafios com o ser humano são muito mais importantes que os desafios técnicos, mas um ótimo comunicador sem técnica não se sustenta no longo prazo. É necessário continuar o desenvolvimento das habilidades de forma que você consiga “fazer” caso seja necessário e, ainda mais importante, caso você não saiba, seja capaz de pedir ajuda e aprenda algo que seus liderados estão executando. Sem isso, uma liderança somente com incentivos e boa oratória, sem a parte técnica, não se sustenta, pois seus colaboradores desenvolvem o senso que o seu “chefe” não faz a menor ideia do que está acontecendo e que está desqualificado para sua função.

Se você algum dia já se questionou quais eram as habilidades que você, como chefe, deveria desenvolver para ser um líder melhor, bem-vindo a esse seleto clube que não possui manual de instruções. Provavelmente você já se sentiu sozinho na hora da tomada de decisão ou em meio a questionamentos infinitos, e também já esteve sozinho até tarde no trabalho. Ou pior: quando você se torna chefe e seus “amigos” do trabalho simplesmente deixam de almoçar com você ou de conversar sobre a vida particular, afinal, agora você possui o poder mágico do cargo e eles se sentem ameaçados com as possibilidades desse “poder”.

Não existem lições únicas, nem sempre a forma de uma pessoa liderar serve para outra, nem sempre uma decisão que funcionou para o projeto A funcionará para o projeto B. A forma de tratar um dos seus liderados não funciona com os demais. Nesse ponto, você descobre que quando virou chefe também ganhou o título de “psicólogo”. Além dos problemas do trabalho, você precisa ter a sensibilidade de entender se existem outros tipos de problemas externos que podem estar minando ou sugando a capacidade/atenção do seu liderado.

E aí que entra outro grande desafio: a gestão de pessoas. Nesse ponto você precisa engajar, seja ajudando, ensinando, preparando, mostrando para seu time que existe luz no fim do túnel e qual a direção que a empresa espera que o grupo reme e, quando necessário, fazer as correções necessárias. Todo curso sobre empreendedorismo, ou melhor, na minha opinião, todos os cursos superiores deveriam abordar gestão de pessoas como um item muito importante na formação de todos os profissionais. Uma gestão eficiente de pessoas pode levar um projeto para o sucesso, assim como uma gestão ineficiente pode desagregar um time, gerar contratações ruins, matar um negócio saudável e até transformar sucesso em insucesso.

Outro mito comum é o de que “chefe não trabalha”. Será? Por vezes ser “chefe” significa ter funções administrativas que só podem ser feitas por você.

A lista de dificuldades não para por aqui. Existe um último inimigo que pode aparecer com o cargo do chefe: você mesmo, ou melhor, o seu “ego”. Infelizmente, a frase atribuída a Abraham Lincoln “Quase todos os homens podem suportar a adversidade, mas, se você quiser testar o caráter de um homem, dê-lhe poder” é extremamente verdadeira e atual. Uma atitude capaz de arruinar sua carreira e liderança é colocar seu ego à frente dos objetivos do seu negócio ou empresa.

As conclusões sobre ser chefe são que você será psicólogo, por vezes ficará sem dormir preocupado com suas metas ou seu negócio, você não saberá o caminho ou a atitude que deve ser tomada, mas saberá para quem perguntar, por vezes você será o primeiro a chegar e o último a ir embora, por vezes estará pronto para tomar uma decisão difícil, fará o que ninguém espera e, por fim, ainda sim, você continuará desconfiado se está no caminho correto e se é capaz de ser o líder que seus liderados esperam e precisam.

Ser chefe significa carregar várias responsabilidades, desde as metas da empresa até a vida dos seus liderados. Essa responsabilidade não diminui com o tempo, pelo contrário, só aumenta e fica cada vez mais complexa.

Rafael Cosentino é formado em engenharia civil e está à frente da Inovalli, plataforma de gestão de negócios e investimentos focada em saúde, tecnologia e real estate

Outro mito comum é o de que “chefe não trabalha”. Será?



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