Cercado por jornalistas de seu país, Fernando Pimenta mostra bom humor após garantir classificação à final masculina da categoria K1 1000m da canoagem de velocidade, em uma ensolarada manhã de segunda-feira na Lagoa Rodrigo de Freitas. Em bom português e com um sorriso maroto, pede licença para tomar um gole d'água e faz questão de seguir o bate-papo em tom informal.

— Quanto você me dá se eu tomar toda essa garrafa de uma vez? É tão fácil quanto beber caipirinhas — arremata, dando uma piscadela com o olho esquerdo.

A cena, carregada de trejeitos brasileiros, transcorre na verdade com sotaque luso. Primeiro atleta de Portugal a conquistar uma medalha olímpica na canoagem — a prata no K2 1000m em Londres-2012, ao lado de Emanuel Silva —, Pimenta é uma febre entre os jornalistas portugueses.

Em cerca de 20 minutos de entrevista após levar seu caiaque à final olímpica, que será disputada na terça-feira, ele é sabatinado sobre os mínimos detalhes de sua rotina, como a hora em que acorda, o que come antes de uma competição, o que faria no restante do dia após garantir a vaga na final e até sobre o paradeiro de sua namorada, que ele diz — sempre em tom de zombaria — não ter vindo ao Rio porque “há muita zika no ar”.

É como se Fernando Pimenta fosse a principal celebridade portuguesa do momento. E não é para menos: ele representa, para Portugal, uma possível medalha de ouro que seria apenas a quinta do país em toda a história dos Jogos Olímpicos, além da primeira em um esporte pouco tradicional. A quantidade de holofotes ao redor de Pimenta destoa da atenção tímida dada a outros atletas da canoagem — exceto, talvez, o brasileiro Isaquias Queiroz, esperança de três medalhas que seriam inéditas para o país.

— Não me sinto um herói ou um “pop star” — esquiva-se Pimenta. — Sou apenas um atleta ambicioso que deseja conquistar medalhas e fazer história pelo meu país. Isso tudo é fruto de muita preparação. Tive um total de 200 dias de estágio de treinamento só neste ano — destaca o português.

OTIMISMO PARA A FINAL

Pimenta avançou confortavelmente na bateria classificatória, e deu a impressão de que venceria a semifinal também com tranquilidade. Depois de metade da prova, porém, foi ultrapassado pelo australiano Murray Stewart e acabou em segundo. Nada que abale a confiança da estrela portuguesa:

— Sabemos que as condições não são as melhores em termos de ondulação. Em alguns momentos da semifinal não tive as melhores sensações na água. Mas estou tranquilo. Hoje remei na casa de 3:33 minutos. Os campeões olímpicos e mundiais costumam ganhar seus títulos com 3:25 minutos. Amanhã espero remar a 3:24 — projeta o canoísta, que encerra a entrevista com a diplomacia típica de uma estrela unânime, antes de atender torcedores para fotos e autógrafos:

— A única forma de agradecer a todo o apoio que recebo é trazer uma medalha para Portugal.

A final masculina do K1 1000m está marcada para as 10h10m desta terça-feira. Antes, a Lagoa Rodrigo de Freitas recebe outras três disputas de medalha. A manhã começa com as finais do C1 1000m masculino, a partir das 9h, prova em que Isaquias Queiroz tentará o primeiro pódio da canoagem brasileira em uma Olimpíada.