“Depois de mim, o dilúvio!”, dissera o rei francês Luís XV. Poderia ser dito pelo rei brasileiro na ONU, mas Michel Temer desenhou lá um paraíso que só ele e 5% da população enxergam. Para o grosso do povaréu, a crise brasileira é um estado permanente desde a megacrise de 1980/83.

A ditadura fracassada deixou filhotes autoritários que confirmam a filosofia distópica do pensador italiano Giorgio Agamben: o estado de exceção, outrora dispositivo provisório para situações de perigo, “hoje se tornou um instrumento normal de governo”. O poder adora combater ou um inimigo externo (refugiados ou a quem acusar de “terrorista”) ou interno (uma oposição a demonizar). Tudo serve de pretexto para martelar mais um prego no caixão da democracia.

A noção precária de que o povo escolhe os governantes se desmoraliza nas eleições com a vitória ajambrada, via legislação, pelos partidos mais envolvidos com a corrupção, bases do Big Center (Centrão, para os íntimos). Reduzido a lulismo e antilulismo, o sistema eleitoral determina que uma escassa fração de eleitores definirá como próximo presidente um dos dois candidatos mais rejeitados pela população.

O “menos pior” escolhido entre os dois mais intoxicados pela rejeição, não por acaso, também são os que mais disfarçam um pacote de ajustes abençoado pelo “deus mercado” que vai sacrificar ainda mais os já arrochados trabalhadores e a classe média. O argentino Macri confessou que seu povo empobreceu com a “austeridade”, mas aqui não se faz autocrítica.

Enquanto os rejeitados ocultam o que realmente querem fazer com o Brasil (como arrecadar mais impostos), aparece um sedutor demônio holandês prometendo a cada pessoa grana suficiente para se manter sem preocupações, usando o tempo livre para o que bem entender, contra a corrente do trabalho escravo e depressivo.

Contraponto ao presidente que prometerá o paraíso em troca de enormes sacrifícios, o demônio holandês acena com a felicidade para uma sociedade de “vagabundos”. Não é assim que tratam pessoas sem emprego e renda, que recebem compensações irrisórias de um Estado incapaz de assegurar os direitos constitucionais aos cidadãos?

O ser maligno que nos quer transformar a todos em “vagabundos” não se limita a lançar tentações sobre uma divindade no Deserto da Judeia. Prefere seduzir, num deserto de ideias, cada habitante da Terra com a promessa de nos distribuir vil metal. Diz ele, Rutger Bergman, que o mundo viverá feliz quando o governo der grana suficiente a cada um de nós.

Quem quiser ganhar mais terá que oferecer algo que as pessoas queiram ou precisem para curtir seu tempo livre, como comida, diversão e arte. Pois alguém terá que apertar botões, educar as crianças, sarar doenças, apagar incêndios, limpar latrinas. E isso custará caro.

Próximos do paraíso tributário dos gestores brasileiros e longe do inferno de vagabundagem oferecido pelo tentador “demônio” holandês nos sobra atravessar o Deserto da Judeia em meio a um feroz calor antidemocrático que resseca a nação.

Alceu A. Sperança é escrito – [email protected]

O argentino Macri confessou que seu povo empobreceu com a “austeridade”, mas aqui não se faz autocrítica