O escritor Ralph Waldo Emerson e Thomas Carlyle escreveram linhas magistrais a respeito dos heróis, do caráter e do papel deles na tessitura da vida em sociedade, e sobre a influência dessas pessoas aquilatadas no desenrolar dos acontecimentos históricos. Opa! Mas não é a respeito das obras desses gigantes que desejo, nesse momento, parlar.

Certa feita, um amigo, que chamarei de Pafúncio, estava num aeroporto aguardando o voo e, lá pelas tantas, quem ele viu? Quem? Não! Capaz! Era o então juiz Sério Moro, sentado, rodeado de seguranças e aguardando um voo.

Meu amigo me dizia que era aflitivo vê-lo ali. A cada barulhinho ou estalo diferente o homem volvia rapidamente seus olhos para uma direção incerta para ver o que era. Notadamente estava acuado e, penso eu, não preciso nem dizer o motivo.

Após me relatar isso, meu amigo me disse que ele também acabou ficando apreensivo, pois, se aquele homem fosse viajar no mesmo voo que ele, neca de pitibiriba que entraria no avião. Desistiria do voo, mas não voaria com o homem da Lava Jato, tamanho foi o medo que se apossou de sua alma.

Isso não é passarinho, nem história de pescador. É real!

Lembro-me agora que, numa determinada ocasião, o referido juiz concedeu uma entrevista ao jornalista Augusto Nunes e este lhe perguntou como era sua segurança e Moro, laconicamente, respondeu: “Por questões de segurança nós não falamos de segurança”. Ponto! Vida que segue e bola pra frente. E foi. Graças a Deus e aí está ele.

Outra história similar a essa é a do juiz Odilon de Oliveira, que exerceu grande parte de sua magistratura em Ponta Porã (MS). Foi o responsável pelos maiores prejuízos impostos ao crime organizado (algo em torno de dois bilhões de reais). Não apenas isso. Ele mandou prender mais de cem traficantes de grande envergadura e, por tudo isso, teve sua cabeça a prêmio. Quem apagasse o homem ganharia a bagatela de um milhão de reais.

Houve um momento tão difícil em sua luta que ele mandou sua família para um local incógnito e seguro e continuou seu combate em Ponta Porã, passando a viver 24 horas dentro do gabinete, onde despachava e dormia em um colchonete cercado por sete seguranças.

Ele lutou o bom combate, aposentou-se e enveredou-se na vida política e, mesmo assim, vive sob forte escolta policial.

Um terceiro caso, que tomei conhecimento não faz muito, é o de uma jovem juíza que, cedo em sua carreira, já sofreu inúmeras ameaças contra sua vida por causa do trabalho. É a doutora Ludmila Grilo. Bem, não preciso nem dizer: a mulher é a coragem em pessoa, dona dum olhar cristalino e firme diante dos perigos que enfrenta. Segundo seus relatos, chegou a receber uma “carta fofa” com o desenho da bala que iria matá-la. Pois é. Mas ela continua no front, altiva, sem esmorecer.

Eu poderia estender a lista… Graças ao bom Deus existem em nosso país inúmeras pessoas de fibra que, sem a menor cerimônia podem ser chamadas de heróis.

Isso mesmo! E o são não porque se autoproclamaram heróis. O são porque seus atos revelam a heroicidade de suas vidas e a grandeza de suas almas.

E se eles tivessem morrido? Seriam mártires, porque foram heróis. Não há heroísmo sem a possibilidade dum martírio; não há heroísmo sem o possível não reconhecimento da luta e do sacrifício heroico. Uma coisa não está separada da outra. Feliz ou infelizmente é assim. Todos os verdadeiros heróis sabem disso e, mesmo assim, lutam até o fim pelo que é justo.

Aliás, como nos ensina o escritor Nassim Taleb, heroísmo sem riscos não é senão carreirismo fútil ou alpinismo social ou político. O mesmo vale para aqueles que se autoproclamam heróis ou algo que o valha. No fundo, o que há, nesses casos, é uma fraqueza humana ciosa por um afago midiático e social, mas não heroísmo.

Seja como for, todo aquele que conhece um pouquinho da grande literatura universal, ou que tenha pelo menos assistido aos desenhos animados do Naruto, sabe muito bem que a grandeza humana não se autoproclama, ela simplesmente se manifesta na forma de atos que transbordam sinceridade, amor e coragem.

Por fim, quando os indivíduos não mais sabem distinguir um comportamento histriônico, cheio de autopiedade, que é replicado por uma multidão histérica, duma atitude realmente digna e boa, é porque tais pessoas perderam totalmente o senso das proporções. Aí meu amigo, é só benzer e deixar pra lá.

Dartagnan da Silva Zanela é escritor