Toda vez que manifesto alguma de minhas reflexões sobre modalidades de ensino, se presencial ou a distância, gosto de iniciar com a distinção que faço entre ensino e educação. Faço isso para tentar deixar clara minha avaliação.

Ao referir-me ao ensino, destaco meu conceito dizendo que se trata de uma ação específica, referente a uma temática ou mais diretamente a um título. Por exemplo: ensinar as operações aritméticas, ou ensinar a composição de palavras, a partir da combinação silábica.

Ações como essas podem ser feitas sem nenhuma contextualização e aí me refiro simplesmente ao ensino. Todavia, contextualizando-as, essas ações passam a fazer parte de uma formação. O sujeito que aprende tais ações, mediante uma contextualização, uma aplicação em seu dia a dia, o faz com significado. A aprendizagem foi significativa. Assim, entendo que esse sujeito está sendo educado. Nesse caso, houve mais que ensino, houve educação.

Tratando-se particularmente do ensino ou educação a distância, o problema não é diferente, pois se estamos mais acostumados com um ensino ou uma educação presencial, no âmbito da escola tradicional, o mesmo não ocorre no âmbito da sociedade como um todo.

Hoje uma pessoa é educada pela sociedade por meio de diversas fontes de informações. No mínimo, além da escola, da família e, para muitos, também da Igreja, existem as diferentes mídias. Todas essas fontes promovem a educação de uma pessoa desde sua mais tenra idade, até seu último instante de vida.

Portanto, seja a educação presencial, seja a educação a distância, ambas já fazem parte da história desde seus primórdios.

No caso da educação a distância, a diferença está no meio de comunicação. Se nos tempos mais remotos as informações foram enviadas por mensageiros, com comunicações orais ou mesmo escritas, por meio de cartas, milênios depois surgiu o serviço de correios e também por jornais e revistas. No século XX, foram agregados o rádio e a televisão. Hoje, talvez, o maior meio de transporte de mensagens seja a rede internacional de computadores, a internet.

Nesse contexto todo, o que se pede é discernimento para poder decidir qual é a melhor modalidade de ensino e de educação a ser utilizada numa determinada situação, seja por pais, professores ou outros agentes de informação.

Nos primeiros dias deste mês de novembro de 2018, numa decisão oficial acerca das Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio, a Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação aprovou a permissão do uso da modalidade de ensino a distância para essa etapa da Educação Básica, observadas as disposições da Base Nacional Comum Curricular (ainda a ser concluída).

De acordo com essa decisão, permite-se, a partir de agora, o uso dessa modalidade de ensino (EaD) para a oferta parcial da carga horária do curso.

Ficou estabelecido que, para o curso oferecido no período diurno, pode-se utilizar o ensino a distância para o cumprimento de até 20% de sua carga horária total e, para o período noturno, de até 30%.

Essa decisão incomodou boa parte da comunidade acadêmica e escolar, bem como a sociedade, por diferentes motivos, dentre os quais se destaca a preocupação com a formação dos professores que deverão ministrar os conteúdos, utilizando essa modalidade de ensino.

Outra preocupação, também manifestada, é quanto à eficácia do ensino a distância para a faixa etária predominante no Ensino Médio, ou seja, dos 15 aos 18 anos.

Cito essas duas admoestações, pois vou além do ensino ou da instrução, eu penso na educação, na formação plena de um cidadão. Não se pode negligenciar a realidade das novas TICs (tecnologias da informação e comunicação) na sociedade contemporânea, mediante sua utilização cada vez maior em diferentes atividades.

Particularmente, penso que a primeira preocupação citada é a que mais me incomoda, pois se tivermos professores bem formados para trabalhar com as novas TICs, creio que rapidamente essa prática será assimilada, com excelentes resultados, uma vez que grande parte desta população já está bastante familiarizada com o uso da internet.

A segunda preocupação citada deve ser respeitada, mas não me incomoda tanto, pois entendo que é uma questão de tempo para ser assimilada.

Relembro que preocupações equivalentes foram superadas num passado não muito distante como o cinema, o rádio e a televisão, em relação à literatura impressa.

Minha preocupação se fixa mais na formação dos professores e da infraestrutura das escolas, sobretudo das redes públicas de ensino, porque tais encaminhamentos carecem de planejamento de investimento em recursos econômicos e humanos. Teremos condições de oferecer ensino público de qualidade, também na modalidade a distância, sabendo da precariedade que ainda persiste em boa parte das escolas do País com o modelo atual?

Fica então esse “chiclete mental” para continuarmos a “mascar”, enquanto não tivermos resposta convincente para esta pergunta.

Ítalo Francisco Curcio é coordenador do curso de Pedagogia da Universidade Presbiteriana Mackenzie

Janela:

Se tivermos professores bem formados para trabalhar com as novas TICs, creio que rapidamente essa prática será assimilada