Depois de 27 anos dando plantão noturno em hospitais, prontos-socorros, UTIs, ganhei de presente uma agradável insônia. Isso que já faz 13 anos que parei com os plantões. Digo agradável porque ela me permite ler até duas ou três horas da madrugada, ou ouvir rádio, raramente assistir à televisão. Às vezes, uma reflexão. Voltávamos da viagem de férias no litoral sul do Rio de Janeiro, quando fomos pegos pela noite. No pequeno hotel da pequena cidade na beira da grande rodovia, pus-me a pensar: como é interessante o “pequeno mundo de cada um”, e como é importante, determinante. Absoluto.

Cada um de nós tem essa possibilidade de interagir com as pessoas da família, amigos, colegas de trabalho, no “pequeno mundo” que nos rodeia, e que é, verdadeiramente, o mais precioso. Lembrei de uma circunstância, em 1996, em que atendia pacientes no “postinho” da Vila Claudete, aqui, em Cascavel. Ao perguntar para uma paciente: “Como a senhora está passando?”, tive uma surpresa. Ela, olhando nos meus olhos, respondeu: “Eu estou bem, e o senhor, doutor, como tem passado?…” Não soube o que responder, de imediato. Um choque. Com quase 15 anos de profissão, na ocasião, foi a primeira vez que senti com profundidade o interesse de alguém pelo profissional que está ali para ajudar ou atenuar problemas, “vestido de médico”, mas uma pessoa comum como outra qualquer. Que também tem suas dificuldades. Ali, foi um divisor de águas, de tempo. Mais um, entre tantos. Fiquei agradecido, tocado. E, com essa sensação de partilha, de troca, ganhei força e estímulo para a caminhada, que se renova a cada dia. Novas pessoas, novas histórias. E o interessante nisso tudo é que podemos ajudar uns aos outros, o tempo todo. Seja um aperto de mão, um sorriso, uma palavra de conforto. Uma escuta.

Trago essa história do passado e a divido com você, leitor, como quem escreve uma mensagem para um amigo, tocado pelo que vi, na madrugada, num canal de televisão a cabo, na pequena cidade de minha viagem de volta das férias. O jovem escritor britânico W. Hume contava a sua trajetória literária, falava dos livros que escreveu. Eram histórias reais, transformadas em romances, de palestinos e judeus, de russos e ucranianos, de refugiados sírios, de povos que viveram ou vivem em guerra, atualmente. Em todos esses lugares, ele encontrou pessoas do bem, desejosas da paz. Após visitar vários países em conflito, decidiu qual seria a sua missão pessoal, de vida: ajudar as pessoas a reduzirem o seu sofrimento. E assim ele faz, relatando histórias de pessoas em situação crítica, necessitadas de ajuda. Perguntado pelo repórter, se não eram histórias repetidas, com os mesmos dramas humanos, ele disse que sim, e que os problemas são os mesmos, há 20 anos, quando escreveu o primeiro livro. Revivendo na literatura as histórias que conheceu, ele lembra que não devemos deixar de sonhar com um outro mundo, e que seu conterrâneo C.S. Lewis estava certo ao dizer que “existem coisas melhores adiante do que qualquer outra que deixamos para trás”. O pequeno mundo de W. Hume é também o pequeno mundo de cada um de nós, e o somatório de todos eles é essa realidade que nos cerca. Cada um pode ajudar da sua maneira. Mesmo contando uma história.

Dr. Márcio Couto / CRM-PR 14933