Opinião

O futuro do trabalho com a indústria 4.0

Marcelo Medina

É inquestionável o fato de como a tecnologia está fortemente presente nas indústrias atualmente e como transforma a produção no mundo moderno. As primeiras indústrias, desde os idos do século 18 com a criação do tear mecânico e da máquina a vapor, influenciaram a sociedade que conhecemos nos dias atuais, além de moldarem os requisitos profissionais do mercado. É sob esse prisma, o do impacto social, cultural e econômico, que a chamada Indústria 4.0 deve ser avaliada.

Com efeito, ela já tem desempenhado um papel fundamental no cenário em que nos encontramos. É como se tudo fosse um grande ciclo: a sociedade exige a produção de novos itens e soluções mais rápidas e mais modernas, o modelo tradicional da indústria é alterado para atendê-las e, por fim, a tecnologia transforma os meios de produção e, por consequência, a sociedade em que vivemos.

A tendência natural é que, em um futuro não tão distante, todas as indústrias vão operar com ferramentas de alta tecnologia. A automação dos processos por meio de inovações como a Internet das coisas (equipamentos fabris ou cotidianos ligados à rede de computadores), robôs inteligentes, análise de dados e soluções em nuvem já faz parte deste novo movimento industrial e impacta fortemente o cenário de produção à medida dos acontecimentos nos variados setores de trabalho.

Analisando esses fatos, é possível colocar duas linhas de pensamento com relação aos efeitos da Indústria 4.0 no futuro do trabalho.

Uma primeira linha argumenta que um processo industrial automatizado não é nenhuma novidade. As grandes linhas de produção já funcionam com maquinários específicos – como uma fábrica de colchões, artigos esportivos ou móveis – e, mesmo assim, nos dias de hoje, ainda há muita gente trabalhando nessas operações. Essa linha se baseia no fato de que a indústria 4.0 é um projeto de alta tecnologia (em desenvolvimento na Alemanha desde 2013), cujo objetivo é levar toda a produção a uma total independência de mão de obra.

Visto dessa forma, se alcançado esse objetivo, podemos prever o fim dos empregos na indústria. Porém, podemos estimar que isso só se refira aos processos industriais.

Segundo os estudiosos que defendem essa linha, a automatização acontece por meio de sistemas que envolvem a internet das coisas e a computação na nuvem, ou seja, que combinam máquinas com processos digitais mediante a ligação do maquinário à rede de computadores – algo impensável há algumas décadas. Eles entendem que será preciso gerenciar todos esses processos, algo que continuará nas mãos dos empregados das indústrias.

Deverá crescer, portanto, a demanda por serviços de TI, operação de sistemas fabris, controle de qualidade, bem como o nível de exigência em relação aos empregados, que devem adaptar-se a esta revolução tecnológica para garantir sua atuação no mercado de trabalho.

Estima-se, dessa forma, a falta de mais de 200 milhões de trabalhadores qualificados no mundo nos próximos 20 anos. Técnicos deixarão de exercer funções repetitivas, como o encaixe de uma peça num automóvel ou num celular, por exemplo. Isso não significa, porém, que os funcionários serão eliminados das linhas de produção. Estes ficarão concentrados em tarefas estratégicas e no controle de projetos.

Mas nem todos os estudiosos do assunto Indústria 4.0 têm uma visão otimista desse fenômeno. Uma segunda linha, formada pelos mais céticos, afirma que, nos últimos dez anos, máquinas estão substituindo muitos mercados de trabalho e novos empregos não estão sendo criados. Proclamam que a Inteligência Artificial está por todos os lados com um objetivo claro: eliminar todos os empregos. Advertem, com previsões sombrias, que em 20 anos 47% dos empregos terão desaparecido. E não apenas motoristas, operadores de telemarketing ou operários fabris serão afetados. Professores, médicos e advogados também estarão nessa mira.

Pesquisadores dessa linha “apocalíptica” fomentam previsões como a de que mais da metade das crianças que estão no ensino básico hoje trabalharão em uma profissão que ainda não existe. Não sem razão, questionam escolas e faculdades com relação a como elas estão se preparando diante de um futuro tão incerto.

Entre a linha dos mais otimistas e a dos mais céticos, eu creio que, diante desses milhões de empregos desaparecendo, outras profissões vão surgir. Porém, seria ingenuidade imaginar que pessoas que atuam em serviços com baixa qualificação possam se reinventar nesses empregos do futuro, que exigirão preparo e expertise de alto nível.

Nesse contexto, acredito que o “empregado do futuro” precisará adaptar-se a novas tecnologias e novos formatos de trabalho e deixo uma boa dica: comece a preparar-se desde já, com cursos e treinamentos que tenham como foco o aprimoramento profissional voltado à tecnologia e até mesmo ao desenvolvimento da carreira em novas áreas de trabalho.

É inquestionável que computadores fazem análises de dados mais acuradas que nossos cérebros. Mas eles não possuem a capacidade de refletir. Muitos dos problemas que temos na humanidade hoje são mais éticos, de moral e de responsabilidade do que técnicos. O mundo hoje pede análise, mas futuramente pedirá reflexão.

Em suma, está chegando o momento em que teremos um computador tão inteligente quanto nós e máquinas maravilhosas produzindo bens que nos encantarão cada vez mais. Porém, não se tornarão conscientes, ou seja, não poderão sentir. E se é isso que vai nos diferenciar dos robôs e computadores, temos que desenvolver mais a consciência humana. Acredito que o profissional do futuro é o ser humano do futuro. Pense nisso.

 

Marcelo Medina é professor nos cursos de Administração, Recursos Humanos e Contabilidade da Universidade Brasil – câmpus Itaquera