Brasília – A equipe econômica pretende abrir uma guerra política entre as milhares de empresas brasileiras e uma fração pequena de companhias gigantes de bebidas, construtoras e petroquímicas. O objetivo é conseguir atrelar uma redução maior do IRPJ (Imposto de Renda de Pessoas Jurídicas) para todas as firmas do País a um corte expressivo de subsídios tributários (arrecadação que a União abre mão) que são usados apenas por alguns grandes conglomerados.

Diante da gritaria do setor produtivo sobre a proposta do governo em taxar os dividendos pagos pelas empresas aos acionistas, o ministro da Economia, Paulo Guedes, determinou que sua equipe prepare uma lista de subsídios que serão atacados já na proposta de reforma do Imposto de Renda enviada ao Congresso há duas semanas.

Pela proposta do governo, entregue ao Congresso no dia 25 de junho, a alíquota do IRPJ cairia 5 pontos porcentuais de 25% para 20% em dois anos, metade em 2022 e 2023. O ministro, porém, já admite em conversas com interlocutores que a Economia calibrou mal o corte. Segundo fontes, Guedes já daria como certa a redução de 5 pontos de uma vez só, a partir de 2022.

Agora, o ministro busca uma tesourada substancial de subsídios para compensar uma queda ainda maior da alíquota. Nos corredores do ministério, um corte de 7,5 pontos percentuais (a alíquota cairia para 17,5%) no IRPJ seria o mais factível, com retirada de R$ 20 bilhões em subsídios dados a poucas empresas dos setores de bebidas, empreiteiras e petroquímicas.

Mas Guedes tem deixado claro o desejo de cortar até R$ 40 bilhões em subsídios já neste ano, o que permitiria reduzir o IRPJ de todas as empresas em até 10 pontos de uma tacada só – ou seja, a alíquota seria reduzida para 15%.

Por trás desse movimento, Guedes quer convencer o PIB nacional de que a taxação de 20% em dividendos que hoje são isentos não significa um aumento da carga tributária para as empresas. Para isso, o plano é acoplar o corte de subsídios ao texto da reforma que será relatada pelo deputado Celso Sabino (PSDB-PA), de preferência, antes do recesso parlamentar de julho. Na prática, o governo também aproveitaria para já cumprir a obrigação de cortar benefícios fiscais colocada pela PEC emergencial aprovada no começo do ano.

Na mira está novamente o Reiq (Regime Especial da Indústria Química), que o governo tentou extinguir este ano, mas o Congresso renovou até 2025. Outros regimes especiais também serão atacados, mas o Sistema S não deve ser incomodado dessa vez, já que a Economia conta com essa parceria para o lançamento dos Bônus de Inclusão Produtiva e de Qualificação (BIP e BIQ).

Sabendo da dificuldade histórica em se derrubar subsídios no Congresso, a equipe econômica vai apostar na guerra de narrativa: com menos imposto para todos, de um lado, e benefícios enormes para poucas empresas, de outro.

 

Taxação de lucros

Guedes não abre mão da taxação de dividendos em 20% nem do fim dos Juros sobre Capital Próprio (JCP), outra forma de as empresas remunerarem os acionistas com abatimento no imposto a pagar. Para ele, a taxação dos lucros e dividendos e o fim do JCP corrigem distorções históricas da tributação sobre a renda no País.

Ao mesmo tempo, ele tem falado abertamente no ministério que prefere “abortar” a reforma do que elevar a carga tributária. Por isso todos os cálculos estão sendo refeitos em direção de uma reforma neutra.

Um eventual excesso de arrecadação pode, por exemplo, ser usado para aumentar a quantidade de famílias aptas para usar o desconto simplificado do IRPF (Imposto de Renda de Pessoa Física). A proposta limita o instrumento à renda anual de R$ 40 mil, mas esse teto poderia ficar maior.