Maria estava com estenose de traqueia pós-Covid-19. Maria não resistiu à traqueostomia. Luana teve gêmeos, estava muito ansiosa e depois não parava de chorar quando os viu. O pai babão agitava o celular no ar. Pedro tinha um tumor de cólon e “nunca precisou de médico na vida.” João estava preocupado com a esposa que estava esperando lá fora enquanto ele iria passar por um cateterismo. Suas coronárias davam sinais de cansaço. Um doutor com mais de 70 anos teve um infarto enquanto trabalhava e não teve tempo para se despedir. Fernanda estava com um nódulo na tireoide e a apreensão estava estampada em seu rosto. Ana veio para fazer uma plástica, mas estava com medo de não acordar depois da anestesia. “Me faça acordar, doutor!”

Outra Maria queria muito ter filho, mas houve um aborto espontâneo e ela veio fazer uma curetagem. Ela chorava quietinha. Uma senhora de 80 anos quebrou o fêmur, estava com medo de sentir dor, mas não sentiu. “Obrigado aos médicos que cuidaram de mim”. Paulo não consegue parar de fumar e agora tem que operar a carótida direita. “Pare pelo menos 48 horas antes da cirurgia”, orientou o médico anestesiologista.

Joana veio fazer cirurgia bariátrica e está feliz. A vida vai ser outra agora, ela espera. “Minha veia doendo”, disse Cláudia, enquanto o Propofol começava a ser infundido. Joaquim tem 3 anos, veio com o Homem-Aranha para tirar as amígdalas. “Cadê a mãe?”, ele pergunta sonolento.

“Quanto tempo a minha filha vai viver se não fizer essa cirurgia?”, pergunta a mãe que tem a filha com paralisia cerebral e vai operar uma escoliose grave. Seu José quer ir embora logo. Não gosta de ficar em hospital.

Ana Maria está com cefaleia pós-raqui. Ela acha que é algum castigo de Deus.

“O cirurgião vai atrasar um pouquinho”, diz a enfermeira passando no corredor. “Pausa para um café.” Responde o anestesiologista. Plantão puxado.

“Que Deus ajude vocês na minha cirurgia”, disse Zélia, que precisava tirar um tumor no abdome. Camila está com covid-19 e, com 29 semanas de gestação, vai ter de ir para cesárea. Ela foi intubada pensando em quando vai poder ver o filho. O bebê nasceu bem, apesar de prematuro.

“Ah, então anestesista é médico?”, brinca um paciente que trabalha no hospital.

“Você vai ficar lá na sala comigo doutor?”, a paciente pergunta para o anestesiologista. Sim, ele vai ficar, até que tudo acabe.

 

Caê Martins – Dr. Carlos Eduardo dos Santos MartinsAnestesista e clínico-geral – CRM 20965/ PR