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Coluna Amparar: Como lidar com a morte do parceiro

09 de abril de 2022 às 10:01
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Algumas vezes, em lugar da entrega à dor da perda, a pessoa sente a dor como compaixão de si mesmo. Enquanto o primeiro modo de viver a dor deixa a pessoa disponível para continuar a vida, o segundo modo a bloqueia para o novo. Não poucas vezes, na vivência da dor como autocompaixão, se faz presente a raiva por sentir-se abandonado pelo parceiro que se foi. Essa raiva vem encoberta pelo luto, que atrai a piedade das outras pessoas. Aquele que vive a dor como autopiedade encoberta pelo luto dificilmente se torna disponível para um novo relacionamento ou simplesmente para ver o belo e bom da vida sozinho. Mesmo quando se decide a uma nova relação, em geral não tem êxito.

Quando um parceiro morre, o sobrevivente geralmente acredita que deve sacrificar sua felicidade à pessoa morta, porque não consegue seguir vivendo com a consciência tranquila. No entanto, as Constelações Familiares mostram que o representante da pessoa morta costuma reagir sempre positivamente quando o sobrevivente lhe diz: “Em memória sua, me atrevo a entrar em uma nova relação e a permitir-me que vá bem”. Por isso, é importante dar à pessoa morta um bom lugar em seu coração e não convertê-lo em tabu, se desejamos abrir nosso coração a um novo marido ou a uma nova esposa, ou simplesmente se queremos continuar uma vida feliz e saudável, ainda que a sós. Se houver filhos juntos, isso se torna ainda mais significativo.

Por vezes isso não acontece. É como se o morto permanecesse atuando e não tivesse ido embora. Isto se deve, explica Hellinger, quando não se vive o luto adequadamente. Como dissemos acima, o luto alcança seu objetivo quando nos entregamos à dor e, através dela, respeitamos e honramos os mortos. Para Hellinger esse é o “luto humilde”, um luto total, mas que libera e possibilita o novo. “Pelo contrário, quem mantém o luto por muito tempo segura os mortos, embora estes queiram ir. Isso é ruim, tanto para os vivos quanto para os mortos. Frequentemente, encontramos o luto prolongado lá onde alguém deve algo ao morto e não o reconhece” (Hellinger, B. A fonte na precisa perguntar pelo caminho, p. 267). Hellinger designa isso de “luto arrogante”, um luto que quer segurar o morto.

Nas constelações familiares, afirma Thomas Schäfer, às vezes se mostra que não são unicamente os vivos que não conseguem deixar ir os mortos, mas também o contrário: “Algumas pessoas falecidas não deixam o vivo seguir e ‘se apegam’ a ele em seu medo e desorientação. Especialmente no caso de uma morte súbita, por exemplo, por um ataque cardíaco ou acidente de carro, a alma da pessoa morta está frequentemente confusa. Não consegue se orientar e ‘adere’ aos parentes vivos próximos. Nesses casos, é útil incluir os familiares mortos da pessoa em questão, que podem assegurar-lhe que está realmente morta. Também dos vivos os mortos precisam ouvir: ‘Você está realmente morto!’” (Schäfer, T. Wie aus Leiden wieder Liebe wird. Knaur MensSana eBook, 2012 – tradução nossa).

Em suma, a vida é um processo contínuo de morte constituído pelas múltiplas separações e perdas vividas como crises durante o relacionamento. Quando o casal passa por esse processo olhando para vida, ele entra em um círculo virtuoso de aprofundamento da unidade cujo prêmio é o de olhar para a morte derradeira com serenidade. Aquele que fica vive a partida com profunda dor e, através dela, respeita e honra quem morreu num luto humilde. Com isso permanece aberto para a vida e disponível ao novo. Ao invés disso, quando a pessoa vive a dor interminável como autopiedade mascarada pelo luto se indisponibiliza para a vida, porque quer “segurar” o morto. Em vez de olhar para a vida que continua, olha para a morte. Com isso faz mal ao morto e faz mal a si mesmo.

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JOSÉ LUIZ AMES E ROSANA MARCELINO são terapeutas sistêmicos e conduzem a Amparar

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