ASCALÃO, Israel (AP) — Uma descoberta arqueológica anunciada no domingo pode ajudar a resolver um mistério bíblico: de onde vieram os filisteus? Arquirrivais dos antigos israelitas nos textos sagrados, os filisteus deixaram cerâmicas e outras evidências, mas pela primeira vez foram encontradas provas biológicas de sua existência, num cemitério com restos de mais de 200 corpos, datados em mais de 3 mil anos.

— Quando nós encontramos este cemitério perto de uma cidade filisteia, nós sabíamos o que tínhamos — disse Daniel Master, arqueólogo da universidade Wheaton College, em Illinois, em entrevista ao “New York Times”. — Nós temos o primeiro cemitério filisteu já descoberto.

O achado aconteceu em 2013, em Ascalão, Israel, após mais de 30 anos de escavações da expedição Leon Levy, que envolve pesquisadores das universidades Harvard, Boston College, Wheaton College e Troy, mas foi anunciada apenas agora. Os arqueólogos encontraram esqueletos completos e outros artefatos, que oferecem pistas sobre o estilo de vida dos filisteus e, possivelmente, respostas sobre as origens desse povo, que surgiu misteriosamente nos textos bíblicos, apesar de terem sido grandes rivais dos israelitas.

Os pesquisadores estão realizando exames de DNA e radiocarbono, entre outros, nas amostras das ossadas descobertas no cemitério, que datam entre os séculos XI e VIII a.C. Não foram anunciadas conclusões, já que exames avançados de análise de DNA ainda estão em andamento.

— Após décadas estudando o que os filisteus deixaram para trás, nós finalmente demos de cara com as pessoas — disse Master, à agência Associated Press. — Com essa descoberta, nós estamos perto de desvendar segredos de suas origens.

Alguns sítios arqueológicos filisteus foram descobertos nos últimos anos, mas eles forneciam poucas amostras para permitirem conclusões. Segundo Master, a descoberta foi mantida em segredo durante três anos para que as escavações fossem concluídas, pois eles temiam a interferência de protestos de judeus ortodoxos.

Nos últimos anos, grupos organizados de judeus ortodoxos têm realizado protestos em escavações onde restos humanos são descobertos, argumentando que os corpos podem pertencer a judeus, e a violação seria uma proibição religiosa.

Na Bíblia, os filisteus são descritos como arqui-inimigos dos israelitas. Um povo estrangeiro, que veio do oeste e se estabeleceu em cinco cidades: Asdode, Ascalão, Ecrom, Gaza e Gate, hoje regiões do sul de Israel e Faixa de Gaza. O mais famoso filisteu dos textos bíblicos foi Golias, o gigante guerreiro derrotado pelo jovem Rei Davi.

Além da Bíblia, os filisteus e suas cidades são mencionadas em antigos textos babilônicos, egípcios e assírios. Muitas históricas contam como os filisteus lutaram grandes batalhas, até sua destruição final pelas mãos do rei Nabucodonosor, da Babilônia, em 604 a.C.

— Os vitoriosos escrevem a História — disse Master. — Nós encontramos esses filisteus, e finalmente poderemos ouvir sua história contada por eles mesmos, em vez dos seus inimigos.

Arqueólogos acreditam que os filisteus vieram da região do Mar Egeu, com base em análise de cerâmicas encontradas em escavações em sítios arqueológicos filisteus. Contudo, pesquisadores debatem de onde exatamente do Mar Egeu os filisteus vieram: do continente grego, das ilhas de Creta e Chipre, ou até mesmo de Anatólia, onde hoje está a Turquia.

Para Yossi Garfinkel, arqueólogo israelense especialista no período, as ossadas podem trazer as respostas por meio de análises de DNA. De acordo com o pesquisador, que não participou das escavações, o cemitério é “uma descoberta bastante significativa”. Além das origens, o achado pode fornecer informações sobre as cerimônias fúnebres do antigo povo.

Os filisteus enterravam seus mortos com garrafas de perfume colocadas perto da face. Nas pernas eram enterrados jarros que possivelmente carregavam óleo, vinho ou comida. Em alguns casos, os arqueólogos descobriram mortos que foram enterrados usando colares, pulseiras, brincos e até anéis no dedão do pé. Outros foram enterrados com suas armas.

— É dessa forma que os filisteus tratavam seus mortos, e isso é um livro de códigos para decodificar tudo — disse Adam Aja, arqueólogo que participou das escavações.