Adoções costumam ser vistas socialmente como atos de generosidade e desprendimento. Afinal, uma criança recebe um lar, o acolhimento de pais e a segurança de um futuro melhor. Bert Hellinger tem muitas reservas em relação a esse procedimento. Suas razões estão ligadas, fundamentalmente, à convicção de que o melhor lugar de um filho é sempre junto de sua família, a começar de seus próprios pais. Contudo, quando uma criança não tem como ser criada pelos próprios pais, a primeira opção deve ser os avós, e, quando estes não podem ou não vivem mais, é a vez dos tios e das tias. Somente depois de esgotadas essas possibilidades é a vez de procurar por pais adotivos ou de criação.

Hellinger prefere até que se encontrem pais de criação em vez de pais adotivos: “É melhor se limitar à criação. A adoção, via de regra, vai longe demais. Ela também não é absolutamente necessária à criança. O que lhe traz a adoção, comparada com a criação? Nesta, tudo é mais modesto e as dificuldades que surgem podem ser resolvidas muito mais facilmente” (Hellinger, B. Ordens do Amor, p. 268).

Quando um casal se decide a tomar uma criança para criá-la em lugar de tomá-la em adoção, fica mais claro o lugar do casal. Eles aparecem desde o começo na condição de substitutos dos pais e não como pais, ainda que adotivos. No entendimento de Hellinger, esse é o ponto principal: que a criança cultive seu vínculo com os pais biológicos, ainda que honre os pais de criação ou pais adotivos.

Quando se trata de adoção, Hellinger traça uma nítida distinção entre uma adoção responsável e uma adoção leviana. Uma adoção responsável começa pelos motivos que levam à adoção. Quando um casal se decide a adotar uma criança olhando para o bem-estar dela, buscando oferecer a ela condições de se desenvolver que não encontraria se não fosse adotada, a adoção tem boas chances de ser bem-sucedida.

Neste caso, escreve Hellinger, “os pais que acolhem a criança podem estar seguros de ocupar o lugar correto: suprem os pais para a criança, ajudando a levar a bom termo o que aqueles não puderam realizar. Cumprem uma função importante, mas na condição de representantes ocupam o segundo lugar. Primeiro vêm os pais biológicos, como quer que sejam e independente do que tenham feito. Quando se respeita esta ordem, o filho adotivo pode respeitar os pais adotivos e tomar o que deles recebe” (Hellinger, B. Lograr el amor en la pareja, p. 83).

É preciso que os pais adotivos se vejam como substitutos dos pais biológicos, como aqueles que estão ali no lugar deles. Nada mais do que isso. Isso implica que devem respeitá-los, pouco importa o que sejam ou o que tenham feito. E inclui que o casal faça um grande esforço para esclarecer a situação dos pais e de seus parentes. E que informe isso futuramente à criança adotada.

Uma vez que a motivação para a adoção deve ser o bem da criança, Hellinger considera que pais que têm filhos próprios são melhores pais adotivos do que aqueles que não têm filhos. Essa preferência se deve a que, no caso de pais sem filhos, a criança adotada corre um risco maior de ser tomada como uma substituta do filho que eles não têm. Este ponto, a motivação para adotar, é determinante para o bem da criança. É o bem-estar da criança que deve estar no centro de tudo e não as carências de quem adota.


JOSÉ LUIZ AMES E ROSANA MARCELINO são terapeutas sistêmicos e conduzem a Amparar.

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