Cascavel – Quatorze anos e o auge da adolescência parece ter sido o ponto comum para homens que hoje lutam para vencer vícios. A idade parece ser unanimidade entre todos que nos relataram suas histórias, agora escritas com tom de superação.

Se pudessem mandar cartas ao Papai Noel, certamente elas teriam a mesma tônica: “Meu pedido é para conseguir me livrar das drogas, fazer com que minha família não sofra mais e que eu possa recomeçar”. Estas foram as palavras de José Freitas repetidas de maneira muito parecida pelos demais.

Aos 38 anos, ele já tentou parar outras seis vezes com uso de bebida e outras drogas ilícitas que começou quando ainda tinha 14 anos de idade.

Há pouco mais de duas semanas ele não bebe e não faz uso de entorpecentes. Vencer o vício é uma batalha diária, ainda com muitos desafios pela frente. As síndromes de abstinência, o desejo de reviver a rua e de reencontrar a companhia que suaviza o sofrimento.

Interno do Molivi em Cascavel desde o início do mês, pela terceira vez, tenta se recompor da morte da mãe, há pouco mais de três anos, e de todo sofrimento que a fez passar. “Não acho que sou um doente, sou um fraco. Fraco por não conseguir ficar longe das drogas e lá fora, quando eu estava trabalhando, tinha dinheiro para manter o vício. Eu quero vencer isso e compensar todo sofrimento que fiz minha mãe passar”, conta, em lágrimas.

O Natal

Para boa parte dos nove internos da casa de recuperação, este será o primeiro Natal afastado da dependência, da cervejinha da confraternização com os amigos e os familiares e das comemorações típicas de fim de ano que, por tradição, exigem brindes, geralmente regados a álcool. “E o álcool é a porta de entrada para os outros vícios. Foi assim comigo e com certeza com os outros”, ressalta, e segue: “Conheci a rua muito cedo, aos sete anos, porque meu pai bebia muito e nos agredia, batia na minha mãe, e na rua eu não apanhava. Era melhor para mim lá. Aos 14 anos fui expulso da escola e a partir disso me entreguei a essa vida”.

 

Uma força para os companheiros

No dia em que visitamos os internos do Molivi para saber como estão lidando com a recuperação afastados do convício familiar nas festas de fim de ano, encontramos Emerson na casa. Desta vez ele só estava de passagem. Foi visitar quem está começando ou está se amparando nos colegas para vencer quem antes os derrotava: a dependência.

Depois de muitos anos de consumo extremo de álcool e drogas que o levaram a viver nas ruas por sete anos, e após muitas tentativas de se libertar daquilo que ele chama de “aprisionamento constante”, Emerson tem hoje convicção de que este é um caminho eterno feito por um dia de cada vez. “Vim visitar meus amigos para dizer que é possível, mas que isso é uma luta diária porque, se eu tomar um gole, tudo vai embora. Eu não tenho mais controle sobre isso. Se beber, tudo se acaba e não posso fazer isso”, afirma.

Ele conta que foram os conflitos familiares que lhe abriram as portas de um mundo marcado pelo consumo desenfreado de alucinógenos, de roubos e furtos. “Como eu já consumia drogas e álcool, minha família não aceitava e fui para a rua aos 14 anos, lá ninguém me cobrava nada, as pessoas ali me entendiam. Cheguei a assaltar e a furtar para manter o vício. A última vez que fiquei preso foram quatro meses atrás das grades. Essa vida já não serve mais para mim”, desabafa.

De volta ao convívio social, está morando com o irmão que lhe emprestou a bicicleta para visitar os companheiros. Uma confiança que ele preza: “Há alguns anos ele [irmão] nunca faria isso. Ele não confiava me dar a bicicleta para eu sair”.

As metas para o ano que se aproxima também já foram traçadas. O ex-patrão lhe ofereceu o emprego em uma fundição de volta. O recomeço está agendado para 2 de janeiro. Além disso, quer recuperar o tempo perdido com a filha, hoje com 17 anos. Na igreja, pretende encontrar uma nova companheira e estruturar aquilo que ele mais deseja ter de novo: a família. “Recomeçar e fazer diferente, é tudo o que desejo neste Natal e conto com as bênçãos de Deus para isso”, ora.

 

O menino que foi se tratar

Lucas é o mais jovem do grupo, tem 20 anos. Mas não menos “experiente”. Ele também começou a usar drogas aos 14 anos. O relacionamento difícil com os pais e a profissão lhe colocaram no colo da drogadição. Apaixonado por fotografia, foi trabalhar na noite, em festas raves. “Eu já chegava para trabalhar ‘louco’. Comecei com a maconha, mas foi rapidinho para cair no álcool, na cocaína e em outras drogas. Há seis meses resolvi fazer o tratamento para a minha mãe parar de me encher, mas aqui vi que eu estava errado e que precisava querer mudar. E optei pela mudança”.

Os pedidos, segundo ele, já foram feito ao Bom Velhinho. O principal deles é a oportunidade de terminar o ensino médio, abandonado pela metade. Sua saída da casa já está agendada para fevereiro de 2019. “Depois quero fazer uma faculdade e me dedicar à fotografia, mas bem longe da noite. As drogas são uma prisão com uma cela individual agonizante. Não quero mais isso para mim”.

Como seu tratamento está em processo adiantado, tendo em vista que a permanência na casa é de seis a nove meses, Lucas teve a oportunidade de deixar o espaço para passar o Natal com a família, em Francisco Beltrão.

Questionado se vai conseguir se manter longe do seu inimigo, ele garante que sim: “A minha família, que antes eu achava que estava errada, é que vai me ajudar nesse processo. Na minha casa não existe bebida alcoólica e a determinação vai me ajudar. O que eu quero neste Natal? Vencer de vez a dependência e recomeçar a vida. Tenho muito tempo para isso”.