
Cascavel - Não é de hoje que a população cascavelense tem expectativa de viver (ou voltar a viver) em uma cidade que ofereça a tão badalada “sensação de segurança”, algo que já se experimentou há alguns anos. A quantidade de moradores de rua que passou a ocupar não apenas a região central da cidade, mas também os bairros como um todo, tem aumentado consideravelmente.
Pelas esquinas e estacionamentos, eles pedem dinheiro, comida e a ajuda que for possível; boa parte ainda diz passar fome, empunhando as famosas plaquinhas “ESTOU COM FOME”, buscando sensibilizar quem passa por eles. Generosa, boa parte da população acaba dando “uns trocados”.
O problema é que o tal trocado, somado com o trocado do próximo motorista, acaba mantendo essa população nas ruas. Segundo último dado repassado pela Secretaria Municipal de Assistência Social, atualmente, são mais de 1,2 mil pessoas nas ruas de Cascavel, praticamente o dobro de um ano atrás. O povo hospitaleiro da cidade acabou abrindo as portas para que mais e mais pessoas viessem se “instalar” aqui.
“Perseguição brutal”
E como toda a mudança vem apenas depois de uma grande tragédia, a história se repetiu. Após o violento assassinato de Luis Lourenço, 35 anos, vítima de um morador de rua no dia 25 de março, nas primeiras horas da manhã, enquanto caminhava próximo ao Parque Vitória, no Bairro Cancelli, a discussão voltou a ganhar força e ações foram desencadeadas. Luis foi perseguido por Ivanildo dos Santos que, transtornado – possivelmente pelo excessivo consumo de entorpecentes – desferiu golpes com um pedaço de concreto envolto em um tubo de PVC. Na sequência, localizado pelas forças de segurança, Santos entrou em confronto com policiais e acabou morto.
Mobilização
O crime chocou a sociedade cascavelense que, a partir de então, deflagrou uma mobilização pedindo mais segurança e ações duras contra as pessoas que estão tornando Cascavel conhecida no país como uma “nova cracolândia”. Desde então, ações bastante rígidas estão sendo realizadas pelos órgãos de segurança e o problema passou a estar estampado diariamente nas redes sociais e nos veículos de comunicação.
Será que agora muda?
Nesta sexta-feira, 4 de abril, dez dias após a morte de Luis Lourenço, os primeiros resultados destas ações já estão percebidos com a polícia efetivamente mais presente nas ruas. Ainda nesta semana a Polícia Militar deflagrou a Operação Vigilância aumentando o efetivo de policiais nas ruas com apoio do 5º Comando Regional da PM, por meio dos Batalhões de Polícia Militar de Toledo, Foz do Iguaçu e Francisco Beltrão.
A Guarda Municipal também tem atuação com mais ênfase nesta situação, também apresentando bons resultados, mas a discussão (e as ações) está apenas “engatinhando”.
POPULAÇÃO DE RUA
“Precisamos trazer este tema para o campo técnico”
Opinar todo mundo pode, mas nem todo mundo conhece o problema na prática como o ex-secretário municipal de assistência social e atual vereador pelo Podemos, Hudson Moreschi Jr.
Na sessão ordinária na Câmara Municipal, na última quarta-feira (1º), Hudson passou a limpo os debates mais acalorados sobre a situação dos moradores de rua em Cascavel. Ele lembrou que foram realizados cerca de 3,2 mil atendimentos em 2024 pela assistência social do Município à população em situação de rua, quando foi possível constatar que 50% são pessoas de Cascavel mesmo, freando a discussão em torno de “despachar” de volta às cidades de origens como única solução para o problema.
A reportagem do Hoje Express procurou o vereador e a primeira afirmação dele sobre o assunto foi direta: “Precisamos trazer este tema de tamanha complexidade para o campo técnico”.
Em relação à campanha idealizada pela Prefeitura de Cascavel que busca desestimular a doação de esmolas, Moreschi avaliou como “muito importante e bem-vinda”, além de vir de encontro com todas as condições técnicas possíveis que a assistência social preconiza.
“Dar dinheiro, dar algum produto acaba sendo uma forma de manter este cidadão na situação de rua. E o que nós queremos é dar a essas pessoas oportunidades, seja de que elas aceitem uma abordagem social, encaminhamento para o Centro Pop, Casa Pop ou até para o albergue noturno”, disse.
Diferentes públicos
Tendo atuado como diretor da Secretaria de Assistência Social de 2013 a 2016 e de 2017 a 2024 como secretário da mesma pasta, Hudson afirma que é necessário diferenciar as pessoas que estão em situação de rua entre aqueles que estão em situação de vulnerabilidade que precisam de encaminhamentos para tratamentos, que são de famílias aqui de Cascavel. “Este público precisa de cuidado com atenção especial e com urgência”. E tem aquelas pessoas que vêm de municípios vizinhos, que acabam encaminhados para grandes centros como forma de resolver o problema. “Inclusive as normativas federais dizem que o cidadão é de responsabilidade da sua cidade de origem. Então, por isso, sempre que identificado alguém que foi ‘despachado’, literalmente, da sua cidade, é importante de forma técnica, comunicar o município de origem, para acionar inclusive o Ministério Público para que sejam tomadas medidas para que ele seja de fato acolhido na sua cidade de origem”, reforçou Moreschi.
Os infiltrados
E por último, camuflado em meio aos mendigos, estão os infiltrados para cometer crimes. “E este público merece atendimento dos órgãos de segurança pública, é o que está sendo feito pelo Coronel Lee, pelas Polícias Militar e Civil. Isso deve ser de fato intensificado através de trabalho de saturação, de insistência que eu acredito que terá resultados”, apostou.
Saúde mental precisa de mais atenção
Para o vereador Hudson Moreschi, há necessidade de um trabalho preventivo, iniciando ainda na Unidade de Saúde da Família de referência. “Quando o cidadão está com problemas com relação ao consumo de álcool e droga, é necessário que o atendimento aconteça ainda na sua unidade de saúde, enquanto esse cidadão está com a família. E aí, sim, nós conseguiremos uma eficiência nesse trabalho e evitar que ele acabe se tornando uma pessoa em situação de rua. Porque diante do uso intenso de álcool e droga, se não há intervenção no atendimento rápido, esse consumo se intensifica, ele se torna uma pessoa agressiva, violenta, agride a família, rouba dentro de casa e a família não tem outra opção – sem julgamento – a não ser colocá-lo para fora. E depois, para reinseri-lo na família, o convencimento é muito mais difícil. Então, por isso, trago aqui as minhas reflexões sobre o tema que é dos mais complexos, sem dúvida, do atendimento público atualmente não só em Cascavel, mas no mundo todo”, pondera o vereador.
Sobre os tratamentos disponíveis nesta área, Hudson explicou que hoje existe uma alternativa criada através da Secretaria de Políticas Sobre Drogas.
“Porém, o fluxo via regulação SUS precisa ser aperfeiçoado, no sentido de ter mais vagas disponíveis, agilizando assim os internamentos regulados pelo Estado”, finalizou.
Mais atenção, mais efetivo e mais segurança nas ruas
A Guarda Municipal de Cascavel tem realizado, desde fevereiro, operações que retiraram das ruas 1.131 objetos perfurocortantes e 1.141 cachimbos para uso de crack. E, para manter as ações, o prefeito Renato Silva anunciou a contratação de mais 28 guardas municipais aprovados em concurso público, que passarão ainda pela Escola de Formação. Segundo Silva, a administração municipal quer dobrar o efetivo da Guarda que atualmente conta com 150 agentes.
A situação de Cascavel é tão preocupante que o secretário de Estado de Segurança Pública, coronel Hudson Leôncio Teixeira, esteve na cidade na quinta-feira (3) para anunciar que o Estado vai prestar apoio ao Município no combate à criminalidade, lembrando da morte de Luis Lourenço. “E o problema que nós tivemos, infelizmente, do falecimento de um senhor na área central, que é o que chama a atenção e que nos comove também, não é um problema exclusivo de Cascavel. Infelizmente, nós não podemos fazer a condução coercitiva das pessoas que usam drogas ou bebidas alcoólicas na rua para tratamento, nós não podemos, exceto com a ordem judicial. Mas as polícias e as forças de segurança como um todo, têm feito abordagem, identificado as pessoas que têm passagem, que têm mandado para prisão, que são encaminhadas, também são apreendidos objetos, que são utilizados como arma, como foi recentemente uma operação feita aqui pelo Município”, disse.
Durante o encontro das autoridades na Prefeitura, as palavras do juiz da Vara de Execuções Penais, Leonardo Ribas Tavares, chamaram a atenção. Ele afirmou que é necessário que sejam feitas mudanças na Constituição e que o monitoramento dos detentos que usam a tornozeleira eletrônica precisa ser revisto, além de ampliar o número de servidores para acompanhar os casos. A afirmação corrobora o que o secretário municipal de Segurança Pública, Coronel Lee, afirmou nesta semana. Segundo ele, quando os guardas municipais identificam uma pessoa com a tornozeleira desligada, nada podem fazer, a não ser comunicar à Justiça.
Agora todos conhecem o Centro e a Casa Pop
Outro assunto que está no centro da polêmica nos últimos dias é a mudança de endereço do Centro Pop (Centro de Referência Especializado para População de Rua) que atualmente funciona no Bairro Santa Felicidade, para a região central. Como o local “escolhido” fica próximo de uma escola municipal e de um colégio estadual, a comunidade se mobilizou contra a mudança e uma audiência pública foi realizada na Câmara de Vereadores na noite de quarta-feira (2), para debater o tema.
O plenário ficou lotado. De um lado os moradores que não querem mais o Centro no seu bairro e, do outro, os que não querem receber a estrutura que concentra, diariamente, um grande número de pessoas em situação de rua.
Empresários e moradores do Santa Felicidade fizeram relatos preocupantes sobre as “consequências” da instalação do serviço no bairro, sintetizada nas palavras “medo, insegurança e prejuízos”. Apesar da discussão acalorada, a audiência fez apontamentos que serão encaminhados para análise da Prefeitura de Cascavel que tem a palavra final sobre o novo local onde o serviço será instalado. (Confira o quadro)
Apontamentos da Audiência Pública
Durante a audiência ficou decidido que a Câmara enviará à Prefeitura proposta para transferir os serviços para um local mais afastado, encarregando-se do transporte dos usuários do serviço.
Outros apontamentos
* Verificar a ficha criminal dos usuários para buscar formas de suspender o serviço em caso de cometimento de crimes;
* Verificar a possibilidade de devolver para sua cidade de origem os cidadãos que não aceitarem o auxílio do Centro Pop e da Casa Pop e preferirem ficar na rua;
* Que a Segurança Pública de Cascavel não faça apenas operações pontuais, mas que esteja permanentemente na rua para atender as ocorrências com pessoas em situação de rua;
* “Operação Resgate Pela Vida”, as pessoas que não quiserem atendimento poderão ser internadas compulsoriamente pelo Governo Municipal;
* Contratação de mais guardas municipais para auxiliar na segurança da cidade, encaminhamento aprovado por unanimidade dos presentes.
* Ao Governo do Estado do Paraná, para contratação de mais policiais militares e policiais civis para ajudar na segurança do município de Cascavel.