Cascavel – A sala de espera de uma unidade de saúde deveria ser um espaço de esperança. É ali que mães chegam aflitas com seus filhos febris, idosos buscam alívio para a dor e trabalhadores procuram o atendimento que lhes permitirá voltar à rotina. Mas, em vez de ser apenas um refúgio de cuidado, muitas vezes o ambiente se transforma em palco de tensão, descontrole e, cada vez mais, violência. Resumindo: o respeito respira por aparelhos nesses ambientes.
No Paraná e em todo o Brasil, cresce o número de boletins de ocorrência envolvendo agressões a médicos. O fenômeno, longe de ser pontual, já desenha um retrato preocupante de como a relação entre pacientes e profissionais da saúde vem se desgastando. Os episódios ocorrem principalmente em consultórios e UPAs (Unidades de Pronto Atendimento), onde a pressão por atendimento imediato encontra a fragilidade de estruturas sobrecarregadas.
O contraste é notório: o Paraná, quinto estado com maior número de médicos, ocupa a terceira posição no ranking da violência contra esses profissionais. A estatística revela um paradoxo doloroso — quanto mais médicos à disposição, mais expostos eles estão a agressões.
As ocorrências vão muito além de simples desavenças. São xingamentos, ameaças e atitudes truculentas. Há quem queira “furar fila” impondo sua urgência sobre a dor do outro, e quem use a chamada “tática da influência”, tentando conseguir vantagem no atendimento ao alegar conhecer o médico. O famoso “carteiraço” quer transformar o espaço público em palco de privilégios forçados.
ALERTA NO PARANÁ
Alguns episódios chegam ao extremo. Em Foz do Iguaçu, um médico precisou se trancar no banheiro de uma UPA para não ser esfaqueado por um paciente. A cena aconteceu em pleno ambiente de saúde pública, onde a prioridade deveria ser salvar vidas.
Os números comprovam a escalada da violência. No Paraná, dados do CRM (Conselho Regional de Medicina) cruzados com os registros da Secretaria Estadual de Segurança Pública apontam que, apenas em 2024, foram 501 casos de violência contra médicos. Entre 2013 e 2024, o total chega a 3.351 registros. As principais ocorrências são ameaças (25%), desacatos (15%), perturbação do local de trabalho e do sossego (10%) e injúria (6%).
Mas as estatísticas não revelam tudo. “Esse levantamento mostra apenas uma fração da realidade dos consultórios, não incluindo outros 14 setores da saúde. Ou seja, o número real pode ser ainda maior”, explica o conselheiro do Conselho Federal de Medicina no Paraná, Estevam Rivello. Segundo ele, muitas situações estão ligadas à falta de estrutura física e humana para atender a população. A ausência de profissionais, somada à superlotação, gera um ambiente inflamável. “O CRM defende que os municípios reforcem a segurança nessas unidades”, destaca Rivello.
ATESTADOS
Em Foz do Iguaçu, o cardiologista e representante do CRM, Luiz Javier Miranda Mc Nally, confirma que já pediu reforço de segurança às autoridades locais nos consultórios públicos. No entanto, não há estatísticas específicas na cidade. “A grande maioria das agressões é verbal. Elas ocorrem principalmente por causa de horários e atrasos no pré-atendimento, antes da consulta”, afirma. Segundo o médico, outro foco de atrito é a emissão de atestados. “Quando o documento não é fornecido ou os dias não atendem ao paciente, surgem as agressões verbais e a truculência”.
A experiência da médica Mayara Dunke ilustra esse cenário. Atuando desde 2019, ela já viveu vários momentos de tensão ao recusar a emissão de atestados por não haver justificativa clínica. A recusa, pautada pelo diagnóstico, muitas vezes se transforma em gatilho para discussões acaloradas e ofensas.
MENOS PROFISSIONAIS
A violência contra médicos não é apenas uma estatística fria. Cada agressão representa um risco de afastamento profissional, uma cadeira vazia no consultório, um atendimento a menos para quem espera. É como uma engrenagem que trava: quando o médico se afasta, toda a máquina da saúde pública perde eficiência, e quem sofre é a população.
Se a medicina é um pacto social de confiança, o rompimento desse elo coloca em xeque a própria ideia de cuidado. Agredir um médico, seja com palavras ou gestos, é agredir também a esperança de quem está na fila, aguardando ser atendido. É um ato que mina a base da saúde coletiva e fere não apenas o profissional, mas toda a comunidade que dele depende.
A cena do médico trancado no banheiro de uma UPA é uma metáfora cruel do que acontece com a saúde pública: profissionais acuados, tentando se proteger, enquanto a população lá fora clama por atendimento. Romper esse ciclo exige mais do que reforço policial. Exige respeito, empatia e políticas públicas que devolvam dignidade tanto ao paciente quanto a quem dedica a vida a cuidar.
Paciente agride profissionais
Uma paciente foi conduzida à delegacia após agredir duas servidoras da saúde na noite da última segunda-feira (25), dentro da UPA Afonso Pena, em São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba. O episódio foi registrado pelas câmeras de monitoramento da unidade.
Segundo informações da prefeitura, a mulher havia recebido atendimento médico e medicação, mas retornou pouco depois exigindo a emissão imediata de um atestado. Ao ser orientada de que seria necessário passar novamente por avaliação, ela reagiu de forma violenta.
No Brasil, média é de 12 médicos vítimas de violência diariamente
No Brasil, os casos de violência contra médicos aumentaram 68% em dez anos. Hoje, em média, 12 profissionais são vítimas por dia em unidades de saúde. Dados do Conselho Federal de Medicina (CFM) mostram que, em 2024, foram registrados 4.562 boletins de ocorrência (BOs) em delegacias de todo o país. Isso significa que, a cada duas horas, um médico sofreu ameaça, injúria, desacato, lesão corporal, difamação, furto ou outros crimes em hospitais, consultórios, clínicas, laboratórios e prontos-socorros, públicos ou privados. É o maior número da série histórica.
Desde 2013, o CFM contabiliza quase 40 mil BOs de violência contra médicos, incluindo casos fatais. Segundo o presidente da entidade, José Hiran Gallo, embora os homens ainda sejam as principais vítimas, a diferença vem diminuindo: em 2024, foram 1.819 casos contra médicos e 1.757 contra médicas. Em oito estados — Acre, Alagoas, Bahia, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro, Roraima e Tocantins — as mulheres já superaram os homens como alvo de agressões.
A maioria das ocorrências (66%) ocorreu no interior, contra 34% nas capitais. Os agressores, em grande parte, são pacientes, familiares ou pessoas sem vínculo com os médicos. Há registros isolados de crimes cometidos por ex-companheiros, casos motivados por ódio ou vingança, e até por colegas de profissão, incluindo técnicos e outros profissionais da saúde.
Do total de registros, 256 (6%) foram de crimes virtuais — calúnia, difamação, injúria e ameaças em redes sociais e aplicativos de mensagens. São Paulo concentrou 26% das ocorrências, com 832 BOs; metade foi na capital e quase 50% das vítimas eram médicas (514 x 517). Em grande parte dos casos, a autoria do crime foi identificada.
CFM
“Para tentar conter a escalada da violência, o CFM apoia o PL 6.749/16, que agrava penas para agressões contra médicos durante o trabalho [o projeto de lei foi aprovado na Câmara em maio de 2025 e seguiu para o Senado]. A autarquia também articula a criação de delegacias especializadas em crimes contra profissionais da saúde e prepara uma resolução que obrigará os diretores técnicos a notificarem a polícia sempre que houver uma agressão”.
“Atestado Responsável” é lançado em Foz
A emissão de atestados médicos — ou a negativa deles — está entre os principais motivos de agressões contra profissionais da saúde. Para enfrentar esse problema, Foz do Iguaçu lançou, na quinta-feira (28), no Espaço Haroldo Alvarenga, a campanha Atestado Responsável, pioneira no Brasil. A iniciativa resulta da parceria entre a Secretaria Municipal de Saúde, o Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR), a Secretaria Estadual de Saúde (SESA-PR) e o Cosems-PR. Em julho, o prefeito General Silva e Luna recebeu representantes do CRM-PR para discutir a segurança dos profissionais que atuam em UBSs e UPAs do município. A campanha nasceu desse debate e busca coibir a violência, esclarecendo que os atestados são emitidos unicamente conforme avaliação clínica e necessidade real de afastamento do trabalho ou da escola. Segundo o secretário municipal de Saúde, Fabio de Mello, cartazes com orientações serão afixados nas unidades de saúde, destacando os direitos de pacientes e médicos e reforçando a responsabilidade na emissão dos documentos.