Brasil - Divulgação
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Brasil - A sequência de más-notícias no campo ganhou mais um capítulo, aprofundando a crise enfrentada pelos produtores de leite no Brasil. Pelo oitavo mês consecutivo, a média/Brasil do preço pago ao produtor voltou a cair, pressionado por estoques elevados e por um mercado de derivados ainda fragilizado, num cenário que combina perda de renda, incerteza e dificuldade de reação para quem vive da atividade leiteira.

De acordo com dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), o valor do leite captado em novembro fechou em R$ 2,1122 por litro, uma retração expressiva de 8,31% em relação a outubro e de 23,3% na comparação com novembro de 2024, em termos reais, já descontada a inflação medida pelo IPCA. Com isso, a desvalorização real acumulada em 2025 chegou a 21,2%, corroendo a rentabilidade do produtor e ampliando a sensação de asfixia financeira no setor.

O principal fator por trás das sucessivas quedas é o excesso de estoques de lácteos, que tem limitado a capacidade da indústria de reagir com reajustes no preço da matéria-prima. Segundo o Cepea, esse movimento deve se manter ao menos em dezembro, o que indica que o ciclo de pressão negativa ainda não chegou ao fim. Na prática, o produtor recebe menos pelo litro de leite ao mesmo tempo em que enfrenta dificuldades para equilibrar as contas da propriedade.

O cenário se agrava com o comportamento dos preços dos derivados. Pesquisas realizadas pelo Cepea, com apoio da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), mostram que os preços dos lácteos continuaram em queda ao longo de dezembro, encerrando 2025 nos menores patamares do ano. A fraqueza nas cotações de produtos como leite UHT, queijo e leite em pó limita o repasse de preços ao produtor, travando qualquer possibilidade de recuperação no curto prazo.

Comércio exterior

No comércio exterior, apesar de algum alívio pontual, o quadro segue longe de ser confortável. Em dezembro, o déficit da balança comercial de lácteos diminuiu 10%, impulsionado pelo aumento de 4,53% nas exportações, que somaram 5,16 milhões de litros em equivalente leite, e pela queda de 9,61% nas importações, que recuaram para 165,4 milhões de litros. Na comparação com dezembro de 2024, no entanto, tanto os embarques quanto as compras externas registraram retração, de 8,41% e 17,5%, respectivamente, o que indica um comércio ainda desaquecido e com impacto limitado sobre o mercado interno.

Do lado dos custos, há sinais mistos. O Custo Operacional Efetivo (COE) da pecuária leiteira encerrou 2025 em queda, o que traz algum fôlego momentâneo ao produtor. Ainda assim, no acumulado do ano, o indicador apresentou alta de 0,5% na Média Brasil, reforçando a pressão sobre as margens. Entre as regiões analisadas pelo Cepea, São Paulo se destacou negativamente, com elevação de 4,57% nos custos entre janeiro e dezembro, evidenciando que a redução observada no fim do ano não foi suficiente para compensar os aumentos anteriores.

Com preços em queda contínua, mercado interno enfraquecido e margens cada vez mais estreitas, o setor leiteiro segue imerso em uma crise prolongada. Para muitos produtores, a combinação de renda menor e custos ainda elevados coloca em xeque a sustentabilidade da atividade, reacendendo debates sobre políticas de apoio, estímulo ao consumo e estratégias para reduzir a vulnerabilidade de um dos segmentos mais importantes da agropecuária brasileira.