Opinião

O aprendizado do príncipe de Abrantes

Paulo Rabello de Castro

Entre as atividades mais instrutivas e iluminadoras para o ser humano estão as viagens, em especial as que nos levam a ter contato com outras culturas, outros sistemas sociais, outros valores. Nosso presidente parece estar aprendendo. Já fez viagens ao mundo americano e agora completa um baita circuito a potências orientais (Japão e China) e a países árabes.

Ainda é cedo para saber se o Brasil terá vantagens comerciais palpáveis. Por enquanto, os acordos são mais genéricos. Porém, podemos afirmar que o presidente lucrou com sua abertura de cabeça. A China não come criancinhas, apesar de ter seus presos políticos. O aprendizado é de tolerância com sistemas políticos de partido único. Mas isso não deve incomodar o presidente cujo partido sempre foi ele mesmo e suas particularíssimas convicções. Como homem de propósitos firmes, o presidente deve ter admirado a firmeza e a unidade de propósitos da China em torno do seu líder, Xi Jinping. Na democracia brasileira, esfarelada em torno de mais de 30 partidos, todo o mundo quer tudo, mas a nação não alcança quase nada.

A convicção em torno de uma meta de crescimento é fundamental para o Brasil. Bolsonaro começa a perceber isso, graças à exposição que sofre com as experiências de fora. Não basta a perseverança antipetista e anticomunista para liderar um país como o Brasil ao crescimento. Também está longe de ser suficiente arrendar um posto Ipiranga para fornecer soluções. O presidente externou na China sua angústia com a tal “retomada da economia”. Isso não estava antes no radar presidencial. Deve ser o relógio político – que marca horas com o dobro da velocidade normal – que deve estar alertando o líder da Nação para a premência de voltar a crescer.

E como fazer para crescer: reformas? Crédito? Ordem na casa? Ordem unida? Ou um pouco de cada uma dessas alternativas? Num governo, o tempo sempre passa voando. O Governo Bolsonaro já está pela metade do seu em termos de tempo útil. O resto é tempo de politicagem e desperdício para uma nação onde as eleições são quase uma constante a agitar a farsa das promessas vazias. Ano que vem teremos mais um saco delas. E Bolsonaro quer ficar. Ao decidir que pegou gosto pela cadeira, o fardo de entregar crescimento e resultados palpáveis se tornou duas vezes mais pesado em função das oposições dos demais postulantes, que não são poucos nem fracos de poderes paralelos.

Há coisas óbvias que o presidente já deve ter constatado em suas recentes viagens de aprendizado. Primeiro, que ninguém vai a lugar algum sem mapa e rota. Um plano de metas é essencial. Já era tempo de o governo ter um. Não tem, mas pode pedir ao ministro. Segundo, precisa respeitar o plano. Parece bobagem, mas não é. O Governo Bolsonaro falou em reforma tributária, agitou, degolou assessores por isso, mas até agora não decolou uma só ideia a respeito. Mas a simplificação tributária de um país considerado, outro dia mesmo, como lanterna pela nova pesquisa ​Doing Business​ em matéria de impostos (o Brasil é o 184º entre 190 países pela maneira hostil como os impostos machucam as empresas aqui) teria que ser prioridade zero para um presidente com a cabeça nas metas de crescimento. No entanto, seu governo trocou de discurso esta semana para largar de lado a reforma tributária para, em vão, tentar consertar um orçamento deficitário com cortes em saúde e educação, que fatalmente não acontecerão. Pura perda de tempo. Escolher objetivos na economia não tem sido o forte da administração atual. Basta comparar com a agilidade e a densidade de resultados práticos obtidos na gestão anterior, do Presidente Temer, que não era popular nem sortudo, mas era eficaz como gestor político.

Os números fracos do desempenho em 2019 se repetirão em 2020. Aí vão dizer que foi por causa do protesto no Chile, da mancha de petróleo venezuelano, da Cristina voltando na Argentina ou do Trump se enrolando nos EUA. Mas nada disso se compara com coisas simples como a taxa do cheque especial subindo em vez de cair aqui na nossa cara; o crédito para pessoas jurídicas encolhendo ao ritmo de 7 bilhões por mês (em termos de % do PIB) enquanto as empresas secam sem recursos para girar seus pagamentos mensais.

São tais ajustes de rota que o presidente viajante terá que fazer ao retornar à terrinha. Embora ignorante confesso em matérias econômicas, o príncipe de Abrantes é um experto em cálculos políticos. E esses já apontam o fracasso de seu sonho continuísta caso as coisas por aqui permaneçam “como dantes no quartel de Abrantes”.

 

Paulo Rabello é ex-presidente do IBGE e do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social)