O uso exacerbado de tecnologias pode ser nocivo ao desenvolvimento cerebral dos adolescentes. E o acesso às redes sociais de forma ininterrupta, com perda da noção do tempo de exposição ao que é observado, pode causar dependência, inclusive com sintomas parecidos aos vícios em substâncias químicas. Por conta desses efeitos e consequências, o acesso irrestrito à tecnologia é um assunto que traz preocupação e ganhou ainda mais destaque depois de um caso de repercussão nacional, em que a médica Fernanda Rocha Kanner, “cancelou” a filha de 14 anos das redes sociais. A adolescente era influencer e tinha mais de dois milhões de seguidores nas redes. O medo de que a filha “se perdesse” com o uso exagerado das redes e a necessidade de postar como se fosse um “trabalho”, foram algumas das justificativas da mãe, que foi elogiada por muitos, mas criticada por outros, que julgaram a atitude radical.

“Isso repercutiu de uma forma interessante e o posicionamento das pessoas mostra o quanto a nossa família está sendo invadida por quem sequer sabe o que realmente aconteceu. Todo mundo tem um palpite para dar sobre todas as coisas, mas não sabe o quanto esse uso exagerado da tecnologia pode prejudicar o desenvolvimento do cérebro do adolescente. Se já é difícil para o adulto ter esse controle do uso das redes, é ainda mais nocivo para o jovem porque a parte do lobo pré-frontal do cérebro é a última área que se desenvolve e normalmente dos 18 aos 20 anos”, explica a médica psiquiatra Regiane Kunz Bereza.

A dificuldade de ter noção do tempo “perdido” na internet se deve muito ao fato de que tanto os episódios de séries quanto os vídeos de outras redes estão interligados. Desta forma, fica mais difícil controlar o uso da tecnologia, o que pode causar dependência. Quem nunca foi assistir aquela série favorita com a intenção de ver apenas um episódio e ficou até de madrugada na tela, percebendo que passou horas nas redes só depois de vários episódios? Este é apenas um dos exemplos da falta de controle que se tem com o uso da tecnologia.

“Por ser algo incutido na rotina, quando a pessoa fica impossibilitada de usar a rede social, pode passar a apresentar sintomas de abstinência parecidos com casos de dependência de substâncias químicas, como dificuldade de se concentrar e explosão de raiva. Sem contar que os assuntos discutidos por essas pessoas e por esses adolescentes, normalmente têm a ver com o que está nas redes, induzindo a uma exclusividade desse repertório, diminuindo cada vez mais o interesse por outros assuntos”, comenta a médica.

Com relação às crianças, para ter um retorno à hierarquia natural com um controle do uso das redes, é preciso trabalhar com a mudança de atitude dos pais, da forma menos traumática possível, o que pode requerer ajuda de psicólogos, psiquiatras e neurologistas.

“As crianças estão cada vez menos receptivas aos comandos. Existe uma falta de autoridade dos pais com relação aos filhos, que estão acostumados a não ter regras a seguir; e os pais acabam se tornando reféns das crianças, fazendo só o que elas querem. Muitas vezes, os pais superestimam a capacidade das crianças de manter o controle com relação ao uso da internet, e elas acabam acessando conteúdos inapropriados para a idade e para o nível de desenvolvimento. As redes sociais não são adaptadas para crianças e adolescentes em geral”, reforça.

Diante disso, dizer não e recorrer a medidas extremas, como a citada no começo do texto, podem ser alternativas possíveis.

“É claro que nenhuma criança e nenhum adolescente gostam de ser 100% controlados. Mas é função dos pais dizer não e exercer certo controle sobre o que está ocorrendo. Nos casos em que os filhos já estão sem nenhum limite em relação às tecnologias, a situação já fugiu do domínio dos pais, mas é preciso que haja pulso e autoridade para impor o que é certo e distinguir o necessário do exagero”, finaliza a psiquiatra.