A relação entre pais e filhos se rege por uma forma particular do princípio do dar e do tomar. Passemos a palavra ao próprio Hellinger para nos explicar: “Em primeiro lugar, é próprio das ordens do amor entre pais e filhos que os pais deem e os filhos tomem. Nesse caso, no entanto, não se trata de um dar e tomar qualquer, e sim de dar e tomar a vida. Os pais, ao dar a vida aos seus filhos, não dão a eles algo que lhes pertença. Dão a eles aquilo que eles mesmos são sem poder acrescentar nem suprimir ou guardar nada para si mesmos” (Hellinger, B. Felicidad Dual, p. 57).

O essencial a compreender é que aquilo que os pais dão e aquilo que os filhos tomam é a vida. A vida que os pais dão não pertence aos pais: eles simplesmente a passam adiante. Consequentemente, ao dar a vida, os pais dão a si mesmos por inteiro aos filhos. Trata-se aqui daquilo que já dissemos em outra reflexão: os filhos não apenas “têm” pais, mas “são” seus pais. Nesta e na próxima reflexão, vamos aprofundar os vários sentidos de “tomar a vida”.

Um primeiro significado de “tomar a vida” dos pais é o fato de que isso envolve um elemento biológico: a vida que os pais dão aos filhos é a vida enquanto existência, isso é, por iniciativa dos pais, um filho passa a ser, passa a existir. Obviamente, os pais não “criam” a vida. A contribuição deles é a decisão de permitir que a potência de vida que existe em ambos, ou seja, um óvulo e um esperma férteis se encontrem. Além disso, porém, os pais cuidam de seu desenvolvimento ainda no ventre da mãe e provêm todo o necessário para a sua conservação após o nascimento. Isso é um bem impossível de ser pago pelos filhos. É uma “dívida” que o filho, por não ter como ressarcir os pais, tem uma única maneira de devolver: passando a vida adiante.

“Tomar a vida” tem ainda um segundo significado: o filho toma a energia masculina do pai; a filha toma a energia feminina da mãe. Graças a esse “tomar”, o filho se torna masculino e a filha se torna feminina. Para passar a vida adiante, é necessário que aconteça o encontro de um feminino com um masculino. Aqui, a “energia” masculina e feminina não é mais algo biológico, como aquilo que acontece na fecundação de um óvulo por um esperma. Aqui se trata de uma escolha: a filha precisa decidir-se a tomar a mãe para ter o feminino em si; o filho precisa decidir-se a tomar o pai para ter o masculino em si. Quando um filho ou uma filha recusa a si esse movimento, ou quando esse movimento é invertido (a filha toma o masculino do pai e o filho toma o feminino da mãe) fracassa a possibilidade de passar com êxito a vida biológica adiante.

A propósito dessa questão, Hellinger escreve algo muito importante: “Uma mulher que ama e respeita a sua mãe, que desta maneira está unida à sua mãe, torna-se muito mais atraente para um homem que uma mulher que está aliada com seu pai e rejeita a sua mãe. Por outro lado, também é certo que um homem que está de acordo com seu pai, que é unha e carne com ele, torna-se muito mais atraente para uma mulher do que alguém que é unha e carne com sua mãe e rejeita a seu pai” (Hellinger, B. Lograr el amor en la pareja, p. 50).

 


JOSÉ LUIZ AMES E ROSANA MARCELINO são terapeutas sistêmicos e conduzem a Amparar.

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