Quando nos deparamos com algum conselho que nos é dado – saliente-se que um bom conselho deve ser gratuito, sem interesse e sem segundas intensões ou ganhos -, um excedente da vivência e experiência de quem o doa, por amizade, amor ou mesmo sem interesse, quase sempre nos causa alguma reflexão. Ou de aceitação ou de repulsa. Raramente refletimos como algo que deveríamos saber.

Claro que o desejável seria que conselhos fossem reflexo do espaço da alma de alguém que, ao transbordar em experiência e alguma sabedoria, jorra aos nossos ouvidos e entendimento como uma poção de tratamento precoce a situações que ainda não vivenciamos, ou que vivenciamos de modo não satisfatório ou que ainda estão por vir.

Nos chega em momentos em que a vida ainda não endureceu, ainda não mostrou seu lado rude e frio da realidade, e, infelizmente, nos passa desapercebido. E, por vezes, vem em momentos que nos perguntamos: como que não pensei nisso, ou não me foi dito isso antes.

Há os conselhos que nós criamos para nós mesmos, reflexo de situações que não nos foi favorável ou que nos desgastaram emocionalmente. E, mesmo esses conselhos, no furor da emoção, parecem decisões definitivas. Todavia, passada a fase emocional da situação, esquecemos e voltamos a nos complicar. Incrível, não? Nem nós mesmos guardamos esses autoconselhos, muitas vezes.

Há um episódio de vida que me marcou muito. Sempre falo com os amigos – talvez como uma forma de que, melhorando o refletir de alguém, mesmo não tão próximo, o faça sofrer menos e reflita em menos problemas na sociedade – sobre um conselho que recebi quando bem jovem de um parente distante.

Seu nome vou simplificar, pois era em castelhano. Tio Alexandre. Um gaúcho de poucas palavras e muita ação. Excelente pai, esposo e patrão. Vivia ele no interior do Rio Grande Amado, digo, Rio Grande do Sul, perto da fronteira do Uruguai. Por ocasião de férias, eu passava alguns dias em sua propriedade rural, uma fazenda com gado criado extensivamente, como na ocasião era comum por aquelas bandas.

Eis que houve um torneio de futebol entre várias comunidades e, associado ao torneio, uma festividade religiosa local. Fui convidado para atuar numa posição de destaque. A de goleiro. Para a torcida a favor, eu era uma esperança de “atacar bem no gol” a todas as investidas dos adversários. Então era destaque para o bem e para o mal, se falhasse desastrosamente. Para os times contrários, era destaque pois queriam marcar gols, não só para vencer nosso time, mas por eu ser um goleiro da capital.

Na localidade, naquele fim de semana que se promoveu o torneio, que se iniciou ainda cedo pela manhã, após a missa das sete e meia, enquanto o churrasco ia para o fogo num galpão cheio de fumaça, brasa, espetos deliciosamente recheados, antigos churrasqueiros e alguma bebida, fazia muito calor. Tempo abafado, mas com um sol radiante e encantador.

Saliente-se que eu ia lá pelos meus 15 anos. Atlético na época. Em boa forma esportiva. Não fomos mal no decorrer do torneio. Fiz até algumas defesas importantes que nos rendeu um honroso terceiro lugar.

Eis que, findo o torneio, meia tarde, com tempo de os atletas finalistas ainda apreciarem as delícias da culinária local e fazerem alguma sociabilidade com os companheiros, outros atletas e as gurias da torcida, e com o calor intenso que fazia, nada melhor do que se hidratar. Foi aí então que, nas banquinhas de bebida, havia, além de “gasosas” e sucos locais, uma bebida típica da região: a sangria, que nada mais, nada menos, era semelhante ao refresco de vinho tinto das regiões serranas no Rio Grande de colonização italiana. Tratava-se de uma combinação de um terço de vinho tinto, “soda club”, que nada mais era do que água mineral com gás num botijãozinho de vidro com válvula superior, açúcar, gelo e limão. Isso servido em copos de vidro bem generosos.

 

A segunda e última parte será publicada na próxima terça-feira

 

Rubem Fernando Xavier da Cruz – médico ortopedista, traumatologista e acupunturista – CRM 9872