O sociólogo italiano Domenico de Masi profetizou para este milênio um período vitorioso para a nossa civilização: finalmente, depois de 10 mil anos de pastoreio e de trabalho agrícola, e alguns poucos milhares de anos após a invenção do eixo da roda, da astronomia, da escrita e da matemática, somados aos dois séculos passados recentemente quando tivemos o surgimento da indústria, centrada na produção de bens materiais em série, chegaremos ao desejado tempo do ócio e do lazer. E eu fico pensando: isso será verdade?

O que sinto, com toda essa moderna tecnologia, é uma espécie de aprisionamento do “ser” e do seu (nosso) tempo. Estamos plugados, ligados, o tempo todo. E podemos concluir: não sobrou tempo para mais nada.

Aristóteles tinha um sonho: chegaria o dia em que o homem construiria ferramentas obedientes às ordens humanas, que trabalhariam por conta própria, libertando os escravos (nós, os escravos da rotina e do tempo!) e os operários. Algo como se fôssemos heróis (e muitos de nós são heróis e heroínas, se pudéssemos todos contar nossas histórias) mitológicos gregos nos moldes de Sísifo, que foi condenado, entre outros motivos, por pensar demais, a transportar uma pedra até o topo da montanha, vê-la precipitar-se à base, tornar a repetir o movimento de levá-la para o topo, e vê-la cair novamente, numa total desesperança. Com a tecnologia atual, um robô poderia fazer esse transporte. Aí teríamos tempo para pensar sem sofrer condenações.  Será que pensar demais pode fazer mal para a saúde? Muitos acham que sim.

Lembro de Sísifo nesta época de começo de ano e com a pandemia da covid-19 impondo reflexões permanentes. O sonho de Aristóteles de que máquinas fariam o trabalho pesado e os homens poderiam, todos, desfrutar da filosofia, da literatura, da música, da pintura e da escultura, está longe de se tornar real. Sempre há algo a nos escravizar e a nos ocupar, quando não o próprio tempo que vai passando.

O professor e filósofo Roberto Marin, de sua janela para o mundo, em Medianeira, aqui pertinho de Cascavel, chegou aos 60 anos e se deu conta que ao seu lado estava, calado, desde sempre, o tempo, e que resistiu bravamente à jornada da vida, mas que foi preciso, a cada manhã, se reinventar.

O meu paciente Antônio Ribeiro, faroleiro aposentado, que nunca ouviu falar em Sísifo, conta que ainda sonha com o trabalho no farol, na Ilha de São Luiz, no Maranhão. Um dia ele se cansou de apenas sinalizar para os navios e desceu ao Porto de Itaqui para conversar com as pessoas. Cada um daqueles navios gigantes que atravessava o oceano tinha uma tripulação de aproximadamente 15 homens, apaixonados pelo mar e com histórias maravilhosas para compartilhar.

Hoje, o farol é controlado por uma máquina, e os navios, cada vez mais automatizados, guiados por satélites. Mas os homens ainda têm, para contar, coisas de se admirar. É por aí que a jornada deve seguir, penso.

As pessoas estão por toda parte, com suas histórias de vida que registram a passagem do tempo, num contínuo processo de reinvenção. Então, vamos repartir esperança. Mas, será o otimismo uma espécie de doença sem tratamento? Quem souber a resposta que me escreva, por favor.

 

Márcio Eduardo Ouriques Couto

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Conselheiro da AMC