A sociedade tem demonstrado crescente dificuldade para lidar com o sofrimento, preferindo anestesiar a dor. Somente enfrentando algum tipo de problema com droga já são pelo menos 35 milhões de pessoas no mundo. Remédios, automutilação e até mesmo a opção por acabar com a própria vida estão entre os caminhos encontrados por uma grande parcela de pessoas para amenizar o martírio, que é também questão de saúde pública. Essas questões nortearam a discussão ontem (21), no auditório da Unipar em Cascavel.

O evento reuniu cerca de 500 profissionais das áreas da saúde, educação, assistência social e de política sobre drogas e proteção à comunidade, além da rede privada, que refletiram novas formas de trabalho e busca de novos subsídios para olhar para o público com o qual atuam, podendo oferecer novas possibilidades para uma vida melhor ou menos dolorosa.

“Gosto de números, de índices, de estatísticas, e fiquei feliz ao constatar que no primeiro quadrimestre de 2019 foi registrado em Cascavel redução de 38% no número de internamentos psiquiátricos, índice que revela não apenas a quantidade, mas a qualidade do serviço intersetorial que é prestado na cidade. Por outro lado, ontem [terça-feira], num período de apenas quatro horas, notei que ainda estamos muito vulneráveis e precisamos avançar, e esses encontros vêm fortalecer nossos profissionais de saúde e servidores que atuam com seres humanos para nos ajudar a promover uma saúde mental melhor na rede”, disse o secretário de Saúde, Thiago Stefanello, ao relatar a perda de um amigo por suicídio e pelo menos três situações que o Consamu registrou na terça-feira (20) e que retratam a atual realidade que os profissionais precisam enfrentar.

Casos alarmantes

O secretário Thiago Stefanello contou que em apenas quatro horas o diretor do Consamu lhe informou cinco casos alarmantes de surtos psicóticos, dentre eles um adolescente de 14 anos tentando suicídio; um jovem de 22 anos que ingeriu dose exagerada de medicamentos com a mesma intenção, e um adulto de 39 anos encontrado numa lata de lixo. “Situações tristes e lamentáveis que demandam fortalecimento dos profissionais e da rede”.

Desafio

Diante dessa situação, Stefanello lançou o desafio de criar em Cascavel um programa-piloto de combate à depressão para que seja apresentado no próximo mês, quando se realiza o Setembro Amarelo, dedicado à prevenção do suicídio: “Vamos amadurecer a ideia, já nos reunir com a equipe na próxima semana e, quem sabe, possamos ser modelo para o Paraná e para o Brasil no tratamento dessa doença tão devastadora, lembrando que o encontro de hoje [ontem] já é uma forma de preparação ao Setembro Amarelo”.

1.475 tentativas de suicídio

No período 2015 a 2019, a Vigilância Epidemiológica de Cascavel notificou 1.558 casos de violência autoprovocada: tentativa de suicídio, automutilação, autoenvenenamento. Desses, 1.475 são tentativas de suicídio e 81 casos de automutilação, conforme apresentado no encontro Saúde Mental: Discussão na Atualidade. “Não é mais problema só de saúde, mas da sociedade”, disse a psicóloga Fabiana Costa, que atua no Caps-Ad, e que abordou a temática Dependência Química na mesa-redonda, ao lado do psiquiatra Eduardo Giacomini, que atua no Casm (temática suicídio) e de Cristiano de Souza, que atua no Caps-Ad (tema automutilação).

Rede fortalecida

Segundo o secretário Thiago Stefanello, apesar dos gargalos e dos desafios que se tem pela frente, a redução no número de internamentos psiquiátricos já é um avanço para a Saúde Mental de Cascavel, uma vez que mostra a força da atenção primária no acolhimento dos pacientes e o matriciamento que vem sendo realizado com as demais secretarias envolvidas, como a Assistência Social e a Secretaria de Políticas Sobre Drogas e Atenção à Comunidade, bem como a quantidade de serviços ofertados como o Caps-Ad, Caps III, Caps I, o Casm, a Residência Terapêutica, o SIM-PR, o Consultório na Rua, ou seja, “o trabalho conjunto mostra que se pode fazer muito pela saúde mental”.