Cascavel – Passados 15 meses de pandemia, a rede de saúde começa a lidar com outro problema: as sequelas deixadas pela covid-19. Em Cascavel, mais de 39 mil pessoas testaram positivo para o novo coronavírus desde março do ano passado, das quais 824 não sobreviveram.

Dentre aquelas que superaram a infecção, nem todas tiveram plena recuperação. E é pensando nessas pessoas que a Secretaria de Saúde de Cascavel resolveu implantar um serviço específico, que irá contar com médicos de várias especialidades, como fisioterapeutas, nutricionistas, cardiologista, pneumologistas, odontólogos e psicólogos. Será um ambulatório pós-covid.

A reportagem do jornal O Paraná conversou com o secretário de Saúde de Cascavel, Miroslau Bailak, para saber exatamente como o ambulatório irá funcionar. “Essa doença tem múltiplas facetas, ela se manifesta de várias maneiras. Existem reações do organismo ao sistema respiratório, acometendo o pulmão; em relação ao sistema circulatório, acometendo o coração e os vasos, provocando tromboses venosas, provocando embolias pulmonares. Existe também agressividade no sistema muscular, com perda de proteína, perda muscular; existe agressividade do ponto de vista psicológico, psiquiátrico… As pessoas às vezes vão para a UTI, ficam intubadas e saem dali com síndrome de pânico, com problemas psiquiátricos. Nós temos um número muito grande de pessoas sequeladas pós-covid”, explica Miroslau.

Hoje, o atendimento pós-covid está sendo feito aos casos mais graves, que são atendidos em casa pelo Paid (Programa de Assistência e Internação Domiciliar).

Equipe multidisciplinar

De acordo com Bailak, o atendimento será prestado por uma equipe multidisciplinar. “A nossa pretensão é criar um ambulatório pós-covid onde colocaríamos reunidos esses profissionais especializados e que dariam oportunidade do paciente de uma maneira inédita. Inclusive, não conheço outro local que faça isso: o cidadão passará por médicos de várias especialidades no mesmo dia da avaliação. Se precisar, passa no ortopedista, no pneumologista, no psiquiatra, no cardiologista ou no clínico geral, dependendo de onde tiver a maior possibilidade de sequela.”

Encaminhamento

Miroslau estima que cerca de 5% dos cascavelenses que contraíram covid-19 tiveram algum tipo de sequela. Assim, o programa servirá para atender essa parcela da população.

Para chegar ao ambulatório pós-covid, o paciente terá de procurar a UBS, que fará a triagem. “Uma pequena parcela, em torno de 5%, o que daria 2 mil pessoas aproximadamente, realmente ficou com alguma sequela, são essas pessoas que serão identificadas nas nossas unidades. A porta de entrada é pela unidade básica de saúde, que vai avaliar e identificar a sequela pós-covid e vai dar encaminhamento para esse ambulatório no momento em que nós o abrirmos.”

Médicos do Cisop

De acordo com Bailak, restam alguns detalhes para pôr em funcionamento o serviço. “É isso o que estamos fazendo: terminando de organizar. Já pedimos para o nosso Comitê Regional da Saúde, entramos em contato com a Sesa, o secretário Beto Preto se comprometeu em providenciar e obter o custeio. O município de Cascavel já organizou tudo isso em uma parceria com o Cisop”.

O Cisop (Consórcio Intermunicipal de Saúde do Oeste do Paraná) é quem vai fornecer os profissionais.

“Nós não temos mais equipes e não posso contratar médicos agora. Nós tivemos uma conversa com o consórcio, que tem esses especialistas e pode disponibilizar para a nossa cota. Cascavel que vai pagar esses profissionais, vai remunerá-los por esse trabalho. Nós vamos comprar serviço do consórcio em relação aos médicos, mas isso não quer dizer que, eventualmente, o consórcio não possa organizar lá. O que nós estamos fazendo aqui é para Cascavel.”

Local indefinido

Entretanto, para dar início aos trabalhos, há um grande entrave: o local de instalação. “Estamos buscando um local em que se possa colocar esse ambulatório. Nós precisamos de um local que esteja preparado do ponto de vista sanitário, porque são consultórios médicos, você precisa ter aquilo dentro dos padrões da legislação”.

A secretaria planejava instalar o ambulatório em duas unidades da Saúde da Família, da FAG/Santo Inácio e do Tio Zaca, ambas na zona oeste de Cascavel. “Nós temos duas unidades de saúde prontas, preparadas para funcionarem, o problema é que existe uma lei federal que nos impede de chamar equipes do concurso. […] Então, eu não posso contratar ninguém para colocar nessas duas unidades para que elas funcionem”, explica, referindo-se à legislação que proibiu aumento de gastos com pessoal imposta como contrapartida à ajuda federal enviada ano passado pelo governo federal como socorro à pandemia.

Contudo, o Conselho Municipal da Saúde não concordou com a instalação do ambulatório nesses locais. “Nós pedimos ao Conselho Municipal de Saúde para que utilizássemos esse espaço para esse fim temporariamente, até 30 de dezembro, da mesma maneira que nós pedimos para o Comitê Regional de Saúde. O Comitê Regional aprovou, não teve problema, mas nós tivemos um impedimento no Conselho Municipal, que concordou que a gente abrisse o ambulatório, mas não nessas duas unidades, sob a alegação de que lá é exclusivo para unidade básica de saúde e que a comunidade não estava aceitando. Eu não tive essa avaliação da comunidade, eu não conversei com eles, mas vou em busca disso, porque eu não entendo como a gente pode impedir uma coisa boa que vai trazer grandes vantagens para a nossa população pós-covid.”