Essa é uma realidade que em meados do ano de 2023 já estará disponível aos usuários de veículos elétricos. A “Rota Elétrica Mercosul – Suporte ao Desenvolvimento e Gerenciamento para Mobilidade Inteligente” é resultante de um projeto pertencente ao Programa de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) aprovado através de Chamada Estratégica de P&D número 22 que trata sobre “Desenvolvimento de Soluções em Mobilidade Elétrica Eficiente”, com recursos disponibilizados pelo Grupo Equatorial Energia (Rio Grande do Sul). Como executora, está a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), com orçamento aproximado de R$ 14 milhões.

A “Rota Elétrica Mercosul” prevê a instalação de estações de recarga rápida no Rio Grande do Sul, em cidades estratégicas ao longo do trajeto de 905 km em um percurso que parte do município de Torres e passa pelas cidades de Porto Alegre, Camaquã e Pelotas além de possuir pontos de recarga na cidade portuária de Rio Grande e nos municípios de Jaguarão e Chuí, que fazem divisa com o Uruguai. Isso possibilitará viajar de carro elétrico até o Uruguai, que já possui uma rota de estações de recarga. A partir do país vizinho, também será possível chegar a Buenos Aires, na Argentina, pela travessia do estuário do Prata. Além disso, há a possibilidade de interligação com o Paraguai seguindo pelas estações de recarga que já existem das Centrais Elétricas de Santa Catarina (Celesc) e da Companhia Paranaense de Energia (Copel). Alzenira Abaide, Professora da UFSM e Coordenadora do projeto, destaca:

“A integração é o trajeto que se conecta. Além de todo o benefício ambiental na utilização de veículos elétricos, os 3 estados da região Sul do Brasil recebem muitos turistas que vêm do Uruguai, Argentina e Paraguai em direção ao litoral. Vamos colocar à disposição uma rota elétrica, reduzindo o custo da viagem e fazendo o turismo da região Sul ser ainda mais atrativo”.

No Rio Grande do Sul, as estações começarão a ser instaladas a partir do mês de outubro em locais em que já existem conveniências para que o motorista esteja em um local seguro para fazer a sua recarga. Segundo Alzenira, esta etapa do projeto levará cerca de um ano. “Depois disso, tem a parte da comunicação, em que teremos um aplicativo que informa em tempo real se a estação está disponível ou se está ocupada e também a funcionalidade de reserva de horário, para evitar filas. Tudo isso já está sendo estudado e modelado. Estamos dando muita atenção ao conforto dos consumidores que vão trafegar pela rota, que em meados de 2023, já estará em funcionamento”.

Depois que as estações estiverem funcionando, será iniciada uma próxima etapa do projeto, que é de analisar o comportamento das estações e fazer melhorias. “Nessa fase de testes, possivelmente não haverá nenhuma cobrança pelas recargas. A legislação relacionada à cobrança de energia, atualmente, ainda não contempla esse tipo de situação. Hoje, apenas as concessionárias podem cobrar pela venda de energia. Para o futuro, nós temos um sonho de integrar as cobranças”.

Do ponto de vista técnico, as estações da Rota Mercosul terão capacidade de fazer recargas rápidas, em 30 minutos, já que as estações de recarga semirrápidas levam de 4h a 8h e as lentas, podem levar de 8h a 12h, não sendo recomendadas para a estrada. Alzenira citou que há alguns fatores que influenciam no tempo de viagem, como o estado da bateria do veículo, a quantidade de carga que ela apresenta no momento do abastecimento, se durante o trajeto houve intercorrências como congestionamentos ou qualquer outro fator que faça com que a viagem não siga um fluxo normal. Por isso, apesar de os veículos elétricos apresentarem, em média, 390 km de autonomia – a partir dos testes dos fabricantes em ambientes controlados – as estações de recarga rápida serão montadas a cada 100 km, para dar ainda mais segurança e tranquilidade aos viajantes. “Nós pretendemos colocar uma microrrede junto às estações, com aerogeradores e painéis fotovoltaicos. Durante o dia, com sol e/ou vento, a geração de energia se tornará ainda mais limpa. Outra frente do projeto também analisará o impacto dos abastecimentos para rede. Em resumo, teremos aí 3 fontes de energia”.

Alzenira comentou que a ideia do projeto surgiu de forma natural. “Quando a chamada da ANEEL foi aberta, ficamos pensando no que havia de mais novo para englobar no âmbito de uma pesquisa. O Uruguai já tem uma quantidade enorme de eletropostos, a Argentina também está se desenvolvendo nesse aspecto. A Rota Elétrica do Mercosul nos integra ainda mais como América do Sul”. Em relação ao trânsito fronteiriço, os veículos elétricos transitam normalmente, desde que a documentação esteja em dia, como qualquer outro veículo.

Luciano Barros, Presidente do Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras (IDESF), destacou que o projeto é um exemplo claro do quanto as regiões de fronteira podem despertar potencialidades para os países. “Projetos como esses são determinantes para melhorar o ambiente das cidades de fronteira, pois, ao serem locais de circulação de visitantes, cria-se atrativos para que o turista pernoite nestes locais, desfrute de atrativos turísticos e ainda possibilita a recarga do veículo”.

Barros ainda completou: “Nós sempre ficamos encantados com essas iniciativas porque mostram as inúmeras possibilidades de integração e de geração de novos negócios que as fronteiras nos proporcionam. Divulgar este projeto aos nossos alunos e público que nos segue cumpre um dos objetivos do IDESF: por meio de suas capacitações, networking e pelo MBA em Gestão de Negócios e Segurança de Fronteiras, abrir o olhar da população para estas regiões tão prósperas”.

A equipe do Projeto

Todos os pesquisadores do projeto são doutores em diferentes áreas. A equipe é composta pelos seguintes perfis:

– 1 Pesquisador especialista na área de distribuição de energia, para analisar os impactos das estações no sistema;

– 1 Professor especialista em telecomunicações, que cuida da parte de comunicação entre as estações e os veículos;

–  1 Professor especialista em informática, para desenvolver os aplicativos;

–  1 Professor especialista auxiliará a equipe nas soluções matemáticas com atuação transversal em todas as funções descritas acima.

Além deles, a equipe também é composta por 3 doutorandos. “Com o projeto, vamos gerar 3 teses de doutorado. Um aluno vai estudar como fazer a precificação e a comunicação entre as estações, o outro trabalhará com o gerenciamento da microgrid e outro vai estudar o impacto na rede. Do projeto, já tivemos uma pesquisa de mestrado defendida, cuja dissertação foi relacionada ao local ideal para instalar e como distribuir as estações de recarga”.