Cascavel – A alta no preço dos derivados lácteos continua pesando no bolso do consumidor. De acordo com levantamento realizado pela UFPR (Universidade Federal do Paraná) e divulgado pela Faep (Federação da Agricultura do Estado do Paraná), a muçarela vem alcançando recordes. Desde maio, quando chegou ao menor valor do ano, o preço médio do derivado já subiu 62%, mas em alguns mercados a valorização passa de 100%. Até três meses atrás, o quilo da muçarela podia ser encontrado por R$ 20 nos mercados. Hoje, dificilmente encontra por menos de R$ 35 e pode até passar de R$ 40.

Os outros queijos seguem a mesma tendência. De maio a agosto, o queijo prato registrou valorização de 45,5% e o provolone, 26%. Parmesão e requeijão também vêm em alta, mas não tão significativas, de 14,5% e 12,9%, respectivamente. “É um movimento inédito. Em agosto, historicamente, temos uma oferta maior, e raríssimamente se vê um queijo se valorizar tanto nesta época”, observa a professora da UFPR Vânia Guimarães, uma das responsáveis pelo levantamento.

O estudo mostrou ainda que a comercialização de outros produtos, como leite spot, leite em pó e creme de leite, também se manteve aquecida. Por outro lado, doce de leite, manteiga e bebida láctea tiveram uma valorização tímida em julho e vêm em leve queda ou em estabilidade em agosto.

A explicação para os preços salgados está ligada a uma série de fatores. “Um dos fatores que podemos obsevar é a redução de captação de leite pelas indústrias. Ou seja, dados preliminares da pesquisa trimestral realizada pelo IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística] mostram que, no último trimestre, a captação do produto foi 3% menor que a do mesmo período de 2019. Já se o comparativo for com o trimestre anterior, a queda é de 10%. Então, essa redução, aliada à demanda aquecida, que pode ter sido influenciada pelo pagamento do auxílio emergencial, a retomada das atividades de restaurantes e Food Trucks também pode ter elevado o consumo e. com menor oferta e maior demanda, a valorização ocorre”, explica Guilherme Souza Dias, do departamento técnico econômico da Faep.

Guilherme alerta que a restrição na oferta do leite pode estar relacionada a fatores como aumento nos custos de produção e até descarte de animais no período mais crítico da quarentena imposta devido à pandemia do novo coronavírus. “A valorização da arroba da carne bovina favoreceu o descarte de vacas mais velhas ou que tinham algum problema e isso influenciou na redução do plantel. Aliado a isso, tivemos aumento dos custos da alimentação, pois, com a valorização da soja e do milho, a ração ficou mais cara, e a pastagem sofreu com a estiagem… são fatores que pesam para o produtor, que acabam reduzindo a produção”, afirma Guilherme.

Preço histórico

O técnico da Faep alerta que, mesmo o valor de referência projetado de R$ 1,8319 para o litro de leite entregue em agosto, a ser pago em setembro, aprovado pelo Conseleite-PR (Conselho Paritário Produtores/Indústria do Paraná), ser o maior patamar da série histórica, é preciso que o produtor tenha cautela. “Temos um cenário muito atípico e não sabemos até quando ele dura. Então é melhor ter cautela nos investimentos. Os custos de produção continuam altos, o valor da saca de milho que chega a R$ 60 e não apresenta sinais de baixa, essa onda de frio que registramos também pode impactar nas pastagens de inverno. São fatores que encarecem a produção e, por isso, o produtor deve focar na eficiência da produção, buscar produzir mais com o que já tem, pois o mercado pode mudar muito rápido”, alerta Guilherme.

Consumidor e empresário reveem hábitos

O aumento do preço dos derivados lácteos fez a dona de casa Nelsi dos Santos repensar o lanche da tarde. “Na minha casa tem cinco adultos e quando todo o mundo chega do trabalho eu preparo um café completo com sanduíche, bolo, leite e iogurte. Mas, com o aumento do preço do queijo, ficou pesado, aí consegui comprar direto de um produtor que faz um preço melhor pra mim e reduzi o tamanho das fatias que coloco no pão; já o pão de queijo que fazia às vezes não dá mais. Além do leite, agora também tem um chazinho na mesa, bom pra aquecer no frio e economizar”, revela.

Já Roberto Fernandes tem dois Fook Trucks em Cascavel e não teve alternativa a não ser repassar o reajuste da muçarela aos clientes. “No início, até conseguimos absorver o aumento, acreditando que seria pontual. Mas foi ficando mais significativo e não tivemos alternativa a não ser repassar. Os [carrinhos de] lanches ficam estacionados em bairros, então a clientela é toda conhecida e já repara nos acréscimos, mas compreende quando explicamos o motivo, porque, no mercado, eles também sentiram o aumento. Quando o valor normalizar, voltamos aos preços antigos”, garante.