“As estrelas, em seu percurso, trabalham pelo homem justo”, diz o povo chinês, que tanta soja nos compra. Depois do artigo Os paradoxos temerários, na semana passada, é de justiça abordar também alguns paradoxos lulários. Antes, porém, cabe indagar: o que é realmente justo?

Os debates sobre questões relevantes que precisariam de consenso interno frente aos desafios globais empobreceram com a concentração das energias no prende-solta que aprisionou a própria a Justiça. Até a celebridade midiática os doutos criavam egos em estufas gradeadas com classicismo e latinório. Os pés de barro dos ídolos apareceram ao se rebaixar a ofensas rasteiras como as que se dizem no cais do porto e nas redes antissociais.

Julgamentos parecem ao povo como jogos de futebol sem favoritos: uma caixinha de surpresas. Face triste da insegurança jurídica é o trâmite judicial ter a ver não só com as leis gerais mas também com os bolsos particulares. Miseráveis sem-instância não têm bolsa-xilindró para recorrer contratando advogados de celebridades.

No liberalismo à brasileira, a prisão é regra. Com milhões já aprisionados pelo medo, o(a) próximo(a) presidente será fatalmente prisioneiro de déficits fiscais até 2022 ou 2023. O Brasil está preso na armadilha da renda média e agrilhoado ao atraso crônico. O povo se viu condenado pelo fracasso do lulismo em reformas que fariam a diferença. Reforma política, e não meramente eleitoral. Tributária, com maior contribuição da plutocracia e menos sacrifícios para os trabalhadores e a classe média. Reformas urbana, sanitária, financeira, brasílica (ou “do Estado”)…

Depois de tantas contradições lulárias, os paradoxos. O primeiro é que ao chamar a atenção para si, tentando se safar, o fulanismo afasta a militância social de se concentrar nos problemas que afligem o povo. No Paradoxo da Reforma Agrária, deixou-a como estava: a conta-gotas e lenta. Não equiparou a evolução tecnológica da agricultura familiar à do agribusiness. No Paradoxo da Igualdade, não quebrou o mecanismo das disparidades. Só deu sequência a conselhos do FMI e do Banco Mundial.

O Paradoxo Lulário do Voto Nulo requer imaginação. Imagine Lula confirmando as previsões e conquistando o terceiro mandato. Aí a Justiça anula seus votos com base na Lei da Ficha Limpa, louvando o presidente que a sancionou. Se a disputa foi polarizada com o segundo colocado e este for um inimigo de Lula, poderá ser declarado eleito caso some mais da metade dos votos válidos. Assim, quem votar neste fulano elegerá na verdade seu inimigo. O paradoxo dos paradoxos: o amado dando a vitória ao odiado.

Se Lula peitar tantos paradoxos e contradições e conseguir vencer, evitará que o(a) próximo(a) presidente, ao receber a faixa, tenha que embutir no discurso de posse algo como a seguinte oração: “Glória a Lula, que sancionou a Lei da Ficha Limpa! Glória a Dilma, que permitiu a delação premiada! Graças a essas glórias eu, paradoxalmente, assumo hoje os destinos do Brasil. Conduzam-me à prisão do déficit!”

Alceu A. Sperança é escritor – [email protected]

Julgamentos parecem ao povo como jogos de futebol sem favoritos: uma caixinha de surpresas