O que se esconde detrás da dinâmica universal de buscar a culpa e o culpado pela separação? Ainda que o plano mental e consciente possa registrar essa dinâmica como um procedimento investigativo necessário de responsabilização do culpado, no plano inconsciente atua bem outra dinâmica: a necessidade psicológica de fugir da dor. Quanto mais profundamente o casal tiver amado um ao outro, tanto mais intensa será a dor no momento da separação. Assim, para suportar essa dor, sentimos necessidade de descobrir o quê e quem é o responsável pela dor que sentimos.

 

Uma dinâmica muito comum de mitigar a dor da separação é colocar-se na posição de vítima. Nesse lugar nos compadecemos de nós próprios implorando pela piedade dos outros. Quando nos colocamos nesse lugar – de vítima – vemos unicamente a nós mesmos. Nenhuma auto-responsabilização pode ter lugar.

 

Para sustentar-se nesse lugar de vítima, a dinâmica mais frequente é socorrer-se das amigas e amigos que confirmem nosso auto-convencimento de que somos vítimas. A auto-compaixão precisa alimentar-se da piedade alheia. As amigas/amigos são a fonte mais eficiente de alimento para essa necessidade de piedade. Por quê? Porque, em geral, as amigas e amigos são unânimes em confirmar que a culpa está no “outro”. A única palavra que alguém com necessidade da piedade alheia suporta é sentir-se confirmado na sua convicção de que o culpado é “o outro”. A lista das “cafajestices” do “outro”, é enriquecida pelos amigos/amigas e chega ao coração de quem foi “vítima” como um bálsamo!

 

Uma vez que a piedade – própria e alheia – mantém aquele que se sente “inocente” na condição de vítima, ela permanece refém do “perpetrador” “culpado”. Com isso fica inviabilizado qualquer processo de superação da dor. Os únicos sentimentos possíveis de serem cultivados nesse quadro é raiva, revolta, mágoa e desejo de vingança. Refém desses sentimentos, a pessoa deixa a vida passar e bloqueia a si mesma o caminho da felicidade.

 

Outra dinâmica típica de quem busca pela culpa e o culpado pela separação é a construção de narrativas. A fim de apresentar a si mesma como “inocente” e ao outro como “culpado”, a pessoa precisa construir uma narrativa plausível. Esta narrativa é repetida exaustivamente aos diferentes círculos dos quais participa. Obviamente, essa narrativa é feita de fragmentos reais ligados entre si por dados fantasiosos de modo a constituir um enredo aparentemente crível. Como se trata, o mais das vezes, de uma dinâmica subconsciente, a própria pessoa que inventa a narrativa é a que mais firmemente acredita na veracidade do enredo que inventou! No fundo, trata-se de um modo de fugir da responsabilidade de assumir a responsabilidade pelo rompimento e suas consequências. O cruel desta dinâmica é o fato de ser levada a efeito através da difamação do/a ex-cônjuge. Com efeito, na imaginação de quem inventa a narrativa, apenas mostrando o quão “mau” é o “outro” será possível evidenciar a própria inocência e bondade!

 

Não há como superar a dor da separação com estratégias como as desenhadas acima. Sem assumir o sofrimento da ruptura e a parte da responsabilidade que nos cabe, não existe solução. Veremos isso na próxima postagem.

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JOSÉ LUIZ AMES E ROSANA MARCELINO são terapeutas sistêmicos e conduzem a AMPARAR.