RIO – Não suportou a morte do filho e foi encontrá-lo. Para familiares e amigos de Joselita de Souza, mãe do menino Roberto, um dos cinco amigos assassinados por PMs na chacina de Costa Barros, a cabeleireira morreu de tristeza. Foi quinta-feira, no Posto Médico de Vilar dos Teles, em São João do Meriti, cidade onde nasceu. Chegou três dias antes à unidade de saúde com parada cardiorrespiratória, antes de descobrir um quadro de pneumonia e anemia. Já não se alimentava bem há quatro meses – só tomava sopa. Havia poucas pessoas no enterro, ontem à tarde, no cemitério de Vila Rosali. Seu ex-marido, pai de Betinho, estava lá.

– Ela era tão alegre, positiva, mas não aguentou a perda do Betinho. Mudou radicalmente. Era o nosso caçula – conta Jorge. – Não conseguiu ir à última audiência, segunda-feira, porque estava mal. Na audiência anterior, em abril, já não estava nada bem. Foi a depressão.

Joselita nunca teve problemas de saúde, conta o ex-marido, com quem viveu mais de 15 anos. Quando Jorge era oficial de manutenção na Universidade Iguaçu (Unig), na Baixada Fluminense, conseguiu para ela uma bolsa 100%. Enquanto ele estudava direito, Joselita passou no vestibular de administração, e os dois se formaram. Trabalhou uma década como fiscal do velho supermercado Sendas, até abrir seu próprio negócio: um salão de beleza. Era o talento falando mais alto.

Betinho morou com a mãe até os 10 anos, em Vilar dos Teles, depois se mudou para a casa do pai, em Costa Barros. Mas os dois se falavam diariamente. Quando sua carteira de trabalho ficou pronta, foi visitá-la no dia seguinte. Quando ganhou o primeiro salário de Jovem Aprendiz, ligou para ela e prometeu que lhe compraria um presente.

Foi por causa do primeiro salário que ele e seus quatro amigos – Wilton Esteves, de 20 anos, Carlos Eduardo Silva, 16, Wesley Castro, 25, e Cleiton Corrêa, 18 – saíram para comemorar, passando o sábado inteiro no Parque Madureira. À noite, após saírem de uma lanchonete, no caminho de casa, o Palio branco em que estavam recebeu 111 tiros de quatro PMs. Cento e onze tiros, sendo 80 de fuzil.

Os policiais respondem em liberdade desde que o ministro Nefi Cordeiro, do Superior Tribunal de Justiça, concedeu a eles habeas corpus, em 16 de junho, justificando que o juiz que havia autorizado o pedido de prisão temporária não fundamentou sua decisão com argumentos – o documento, assinado num plantão de fim de semana, tinha uma lauda e meia.

Vendo a dor solitária da mãe, que morava sozinha na Abolição, Vinicius de Souza Penha a trouxe para perto de si, em São João de Meriti. É o mais velho, irmão de Betinho, tem 22 anos. Os últimos dois meses de Jozelita foram com ele e a nora.

– Minha mãe era animadora de festa, se fantasiava de palhaça, botava maquiagem e ficava linda. Era uma pessoa extraordinária, alegria era com ela. A gente desfilou no carnaval da Intendente Magalhães há dois anos. Era cabeleireira de mão cheia, virou empresária. Fazia artesanato, costurava roupa. Não tenho nem como explicar – diz Vinicius. – No meu aniversário, dia 24 de maio, ela comprou carne, fizemos um churrasco em casa. Mas ela não comeu nem bebeu nada. Dignamente, ela se entregou.

Nas últimas semanas, com a soltura dos policiais Antonio Carlos Gonçalves Filho, Thiago Resende Viana Barbosa, Marcio Darcy Alves dos Santos e Fabio Pizza Oliveira da Silva – que disseram na última audiência, dia 4 de julho, não terem dado sequer um disparo contra o carro -, Jozelita se abateu ainda mais. Já estava perdendo a esperança de justiça quando soube que os policiais não apenas continuam na corporação como estão trabalhando, em funções administrativas segundo a PM, que não dá prazo para o processo interno de exclusão dos policiais.

O promotor do caso, Fábio Vieira dos Santos, recebeu com tristeza a notícia da morte de Joselita.

– É uma mistura de tristeza e também revolta. A ausência do estado causa um mal enorme, inúmeros na verdade, que são colaterais à falta do remédio correto no momento certo. Estamos lutando muito, já fiz um novo pedido de prisão, estamos aguardando a resposta – afirma. – Não faltam elementos que confirmam a autoria do crime. Mas a justiça demora, e as famílias sofrem muito.

Em sua página no Facebook, Joselita sorri em todas as fotos até a morte de Betinho. São recordações de rodas de samba, festas em família, seus momentos com os filhos. As fotos mostram uma mulher jovem, cheia de vida, que ia de manhã para a academia e, depois, para o trabalho.

Na quarta-feira, véspera da morte, Vinicius e a mãe tiveram uma conversa franca. Falaram sobre Betinho. Ele não queria que ela tivesse se entregado. Ela chorou.